COLUNISTA

O teatro da glória: matemática, criação e adoração

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

A discussão sobre "Deus e a matemática" não é recente nem nasceu de uma descoberta isolada. Trata-se de um debate antigo, que atravessa séculos e envolve cientistas, filósofos e teólogos tentando entender por que o universo pode ser descrito com tanta precisão por números e equações. Em entrevistas amplamente divulgadas, o astrofísico Willie Soon retomou esse tema ao apresentar reflexões de caráter filosófico e teológico. Ele chamou a atenção para um episódio marcante da história da física: em 1928 Paul Dirac formulou uma equação para descrever o comportamento do elétron. Ao trabalhar com os cálculos, surgiu algo inesperado - a matemática indicava a possível existência de uma "partícula-espelho" do elétron. Naquele momento, isso era apenas um resultado teórico, algo que ninguém havia visto. No entanto, alguns anos depois em 1932, Carl Anderson observou experimentalmente o pósitron, confirmando aquilo que antes era apenas uma previsão matemática. Esse fato impressiona porque mostra uma equação antecipando uma realidade ainda desconhecida. Com essa base Soon tem argumentado que a matemática parece estar profundamente ajustada ao mundo físico, quase como se fosse uma linguagem inscrita na própria estrutura do universo. Para ele essa harmonia entre números e natureza pode sugerir que há uma inteligência ou propósito por trás da ordem do cosmos.

A cristandade tem recursos antigos e robustos para dialogar com esse tema sem triunfalismo. A Bíblia afirma que o mundo é criação de um Deus racional, que "com sabedoria fundou a terra" (Pv 3.19) e que sustenta todas as coisas (Cl 1.16,17). Por isso que para a Bíblia não é estranho que exista ordem, regularidade e estrutura. João Calvino chamava a criação de "teatro da glória de Deus". O cosmos não é obra do acaso, mas o palco onde a grandeza do Criador se deixa perceber, ainda que de modo limitado. Essa é a doutrina da revelação geral: "os céus proclamam a glória de Deus" (Sl 19.1). A matemática não prova Deus como uma fórmula prova outra conclusão, mas a ordem e a lógica do universo expressas na matemática, podem servir como um sinal de que há uma inteligência por trás da realidade.

A Escritura lembra que o problema do ser humano não é falta de dados, mas a disposição do coração. Paulo diz que os homens "suprimem a verdade" (Rm 1.18-21), isto é podem ver a ordem e a lógica, contudo ainda assim recusar o Autor. Por isso a matemática pode despertar assombro, mas não substitui a necessidade de arrependimento e fé. Agostinho já percebia essa tensão: conhecer padrões do mundo não é o mesmo que conhecer o Deus do mundo. A mente pode se maravilhar com a harmonia do universo e ainda permanecer distante do Criador que o sustenta.

A história de Dirac mostra algo profundo: a realidade é mais rica do que nossa intuição, e o universo não se curva à nossa vontade. Em termos bíblicos, isso humilha o orgulho humano: "Quem é este que obscurece o conselho com palavras sem conhecimento?" (Jó 38.2). O cristão não teme o conhecimento, ele combate a idolatria - seja religiosa, seja intelectual - inclusive a idolatria de transformar ciência em salvação - ou no outro extremo, transformá-la em arma retórica. Abraham Kuyper (1º ministro holandês) insistia que Cristo reivindica soberania sobre "cada centímetro quadrado" da vida; portanto, pensar cientificamente e pensar teologicamente não são inimigos por natureza, desde que cada área permaneça em seu devido lugar.

Se alguém pergunta: "Então a matemática aponta para Deus?" - a resposta é: ela pode apontar como seta, não como algema. Ela pode sugerir que o universo é inteligível, ordenado e não absurdo; e isso se ajusta muito bem ao Deus da Bíblia. Mas a fé cristã não repousa no pósitron; repousa no Cristo crucificado e ressurreto. A evidência mais decisiva de Deus não é apenas uma equação científica; é um túmulo vazio e uma nova criação em marcha. E essa é a virada final: o mesmo Deus que escreveu ordem na natureza escreveu graça na história. Ele não apenas "explica" o universo; Ele redime pecadores. Assim quando ouvirmos argumentos sobre "a teologia por trás da matemática", podemos acolher o impulso correto - o assombro diante da racionalidade do mundo - e ao mesmo tempo conduzir o coração ao centro: "dele, por meio dele e para ele são todas as coisas" (Rm 11.36). A matemática pode nos ensinar a admirar; o evangelho nos ensina a adorar

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