TOBIAS

Empresário bauruense de oito milhões de bisnagas de creme dental

Por Nélson Itaberá | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Nelson Itaberá
José Eduardo Tobias enxergou longe e faz sucesso
José Eduardo Tobias enxergou longe e faz sucesso

Quando a marca Colgate comprou a poderosa Kolynos, em 1997, o engenheiro de produção José Eduardo Tobias enxergou o que o mercado chama de oportunidade. Adquiriu em um ferro-velho na cidade de São Paulo uma máquina parada de produção de creme dental.

Utilizou os aprendizados com o pai (saudoso Youssef Nakhl Tobias) acumulados desde 1974, quando nasceu a primeira produção fabril da família, e os conhecimentos na universidade para revisar e pôr o equipamento para funcionar. Em 2001, produzia as primeiras embalagens de creme dental em escala, em Bauru. Perto de se passarem 30 anos depois, o empresário instalado no Distrito Industrial I acaba de assinar um novo ciclo de "oportunidade": a IceFresh fechou negócio com a poderosa farmacêutica Cimed.

Como essa história chegou aqui?

A trajetória de empreendedorismo em escala tem vários ingredientes essenciais, na visão do próprio Tobias. Um deles é o desenvolvimento da percepção, o "tino" pelo setor. Ele foi fazer graduação em engenharia de produção pela Universidade de São Paulo (USP), após ter acompanhado o pai iniciando sua jornada fabril montando pacotes de salgadinho de milho. "A gente falava com humor em casa que era nossa Elma Chips. Meu pai começou tudo isso fazendo salgadinho de milho embalado e guarda-chuva crocante. Quem tem pelo menos 40 anos se lembra desse doce", conta.

Outro ingrediente, talvez essencial nessa jornada familiar, foi visualizar e decidir fazer. Parece simples. Mas não é. E para compreender essa dimensão no mundo dos negócios de porte é preciso voltar a 1917, quando a Kolynos começou a atuar no Brasil no então incipiente segmento de higiene pessoal. No início como produto importado. A marca conquistou o brasileiro a partir de uma exitosa campanha de marketing de varejo. Nas décadas de 80 e 90, a "pasta de dente" dominava o segmento com 52% de participação.

Quem vai se lembrar do jingle de sucesso na TV, vendendo felicidade e saúde com a inconfundível embalagem verde amarela?

Sorriso

Mas a bilionária aquisição da Kolynos pela Colgate-Palmolive abriu "outra janela" para a família Tobias. "Quando fui na sucata na Capital e comprei minha primeira máquina da Colgate quem atuava no meio achou loucura. Porque a líder Kolynos estava sucumbindo à poderosa Colgate. Nesta fase, abriram 30 fábricas no Brasil, de diferentes portes. E só nós ficamos em pé. Só 1 vingou. Ajustar nossa própria máquina e apostar nisso fez a diferença", lembra Tobias.

O empresário exterioriza que seu outro desafio era o estigma da possibilidade de fracassar. "Carreguei isso comigo na família. O desafio de fazer dar certo. E avançamos", cita. Mas eis que veio um novo ciclo, natural em empresa familiar. "Chegou um momento em que minha mãe me falava que não tinha mais razão para investir para crescer. E minha irmã tem outro projeto de vida. Faz parte. Eu decidi fazer carreira. Meu pai vivia a indústria. E eu queria fazer a IceFresh crescer", menciona.

Um 'salto' para a semana passada, quando o CEO (e dono) da Cimed no Brasil, João Adibe Marques, desembarcou com seu jatinho em Bauru para analisar a estrutura fabril da IceFresh e, enfim, concluir a oferta de compra. Ele adquiriu os 50% da mãe de Tobias e 15% da irmã. O engenheiro bauruense permanece com sua participação e na direção da indústria.

Mas é, até certo ponto, inusitada, a 'janela' que deflagrou a intenção de ?compra pela Cimed. "O Adibe tinha manifestado interesse em comprar. Mas estava fazendo prospecção no mercado, entre várias fábricas existentes. O plano da Cimed é crescer como fabricante de creme dental. O mix da empresa é enorme. Mas é forte em farmacêuticos. E eles estavam tinham um terceirizado em Minas Gerais e precisaram de uma alternativa para fornecimento. Eles literalmente testaram a gente. Fizeram pedidos de porte, com prazo curto para produzir e entregar e demos conta. Isso chamou a atenção do Adibe. Ai ele veio pra cá e o negócio da compra da Ice saiu", resume Tobias.

E lá vem, de novo, a expressão: oportunidade. José Eduardo foi acionado pela Cimed para integrar o plano de expansão da fábrica no segmento que ajudou a desenvolver. Isso casou com seu desejo de crescer. "Firmamos um projeto inicial de 3 anos e isso renova a motivação para fazer crescer. E a marca IceFresh é o carro-chefe disso. Fazendo ir mais longe o que conseguimos consolidar", aborda.

8 milhões

O número expressivo do desafio trazido no título da matéria, então, fica, propositadamente, para o fim - porque ele, na verdade, é o começo do "novo ciclo". A IceFresh é a aposta da Cimed para expandir sua participação na linha de produtos da higiene bucal. A meta é atingir a capacidade instalada de 8 milhões de bisnagas mensais de creme dental. "Produzimos e vendemos 1 milhão de bisnagas de creme dental por mês para uma capacidade instalada de 8 milhões. Já com a Cimed dobramos neste início já para 2,5 milhões mês a produção", cita, em torno do desafio. Em higiene buscal, a farmacêutica Cimed só tinha produto da linha infantil, com sabor.

Na outra linha da fábrica, o negócio representa 1,5 milhão de frascos mensais de enxaguante bucal. O produto fio dental é amplamente liderado, no mundo, pelos chineses. "95% das escovas e fio dental vêm da China. Eles desenvolveram tecnologia de injeção em plástico que domina", avalia o empresário. Escovas de dente e fio dental representam cerca de apenas 300 mil unidades mensais de produção por aqui.

"Em meados de 2025 verifiquei que minha capacidade de armazenamento da produção estava no teto. Fiz um novo galpão. E por incrível que possa parecer essa expansão também fez a diferença na hora da Cimed escolher. Porque isso representa capacidade imediata de expansão", detalha. A indústria tem 7 mil m2 de terreno, com 3 mil m2 construídos hoje.

Das bisnagas produzidas pela IceFresh, o filme vem da China e a bisnaga é produzida em Bauru. Tobias desenvolveu a rota da embalagem na fábrica. A massa de creme tem grandes recipientes no 'chão de fábrica' com capacidade para 7 mil kg de estoque em uma frente e mais duas unidades de 12 mil kg em outra.

Mas há outro "detalhe" no processo: "para um mercado poderoso onde só a Colgate e a Unilever verticalizam seu layout na produção final da embalagem, me salvou eu ter adquirido uma máquina só para fazer isso da Bulgária". O ganho de escala é evidente.

Neste momento, já sob os efeitos da venda com participação majoritária da Cimed, deixam a fábrica da IceFresh em Bauru, todos os dias, 2 carretas de produtos rumo a Pouso Alegre (MG). Lá a Cimed tem um dos vários Centros de Distribuição em cada Estado brasileiro. Uma vantagem logística que, também, explica seu alcance.

Linha de produção com embalagens da Cimed
Linha de produção com embalagens da Cimed

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