FAUNA E FLORA

Armadilhas fotográficas monitoram e ajudam fauna em Bauru

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo Jardim Botânico de Bauru
Onça parda em área de proteção do Jardim Botânico
Onça parda em área de proteção do Jardim Botânico

Muito além da mera curiosidade, as armadilhas fotográficas têm como principal objetivo a preservação da fauna e da flora, por meio do monitoramento de animais silvestres e do meio ambiente sem interferência humana. São muito comuns na conservação ambiental e em pesquisas científicas. É por esse motivo que o Jardim Botânico e o Zoológico de Bauru estão adquirindo as câmeras.

A armadilha fotográfica funciona da seguinte maneira: a câmera é instalada em áreas estratégicas da mata ou de reservas e, no caso do Zoo, nos recintos dos animais. Ela é acionada por sensores de movimento e calor. Quando um animal passa em frente, a câmera tira fotos ou grava vídeos automaticamente, durante o dia e a noite.

A gerente administrativa e financeira do Zoológico, Samantha Bittencourt, explica que o uso de câmeras de monitoramento é fundamental para acompanhar o comportamento dos animais, especialmente durante a noite. Elas auxiliam na adaptação de espécies que chegam sem condições de retorno à vida livre, como os atobás, permitindo observar interações, evitar brigas e identificar conflitos sem a presença humana.

Segundo Samantha, o objetivo principal é garantir o bem-estar dos animais, compreender melhor seus comportamentos e apoiar decisões sobre reabilitação, permanência no zoológico ou possível retorno à vida livre. A câmera utilizada para esse monitoramento foi recebida por meio de doação.

As câmeras também ajudam a identificar animais de vida livre que circulam pelo zoológico, possíveis predadores e vestígios deixados no local, além de monitorar espécies de hábitos noturnos que não são vistas durante o dia.

"Temos cinco atobás (ave marinha comum na costa brasileira) no Zoo. Três vieram do Instituto Gremar, que é do Guarujá, e os outros dois vieram do Rio de Janeiro. Eles passam por um período de quarentena e adaptação e, quando juntamos todos no recinto, é um processo delicado. A gente tem que observar o comportamento entre os indivíduos", explica Samantha.

A diretora informa ainda que "por mais que sejam da mesma espécie, a gente precisa observar se vai haver briga. Durante o dia, os técnicos conseguem se revezar para monitorar esse comportamento, mas à noite utilizamos a câmera para observar se houve algum conflito".

As câmeras também ajudam a monitorar os "visitantes" noturnos do Zoo. Saber quem são e o que fazem dentro da área do parque é importante para o ecossistema, uma vez que o local está inserido em uma área de preservação ambiental.

Um exemplo é uma garça-branca-grande que adotou o recinto dos atobás como refúgio noturno. "Ela é de vida livre. Toda noite vem para o recinto dormir, é um lugar onde se sente segura. Como é um recinto aberto, outros animais podem entrar", destaca a diretora. De acordo com Samantha, no fim da tarde já é possível observar jacutinga, gavião-carcará, cutia e teiú, que são vistos todos os dias pelas ruas do Zoo.

Outro uso importante das câmeras é no manejo e acompanhamento veterinário, como no caso de animais em tratamento ou reabilitação, permitindo avaliar alimentação, atividade e recuperação.

"É uma ferramenta que a gente usa a nosso favor para observar o comportamento dos animais dentro do recinto, muitas vezes no cambeamento (estrutura interna atrás do recinto). Uma onça-pintada, uma onça-parda ou um tigre, por exemplo, têm cambeamento, onde passam o período da noite por questão de segurança e manejo alimentar, para fracionar e contabilizar a alimentação, além de auxiliar na recuperação de animais feridos que o Zoo recebe, geralmente vítimas de atropelamentos ou maus-tratos."

Quando chega um animal adulto de vida livre, é realizado todo o tratamento necessário. Os veterinários fazem acompanhamento, diagnóstico avaliativo e exames de sangue, raio-x e ultrassom. Quando há necessidade de intervenção cirúrgica, o tratamento é mais longo e o animal não pode retornar imediatamente à vida livre. Em alguns casos, as sequelas impedem a soltura.

Atualmente, o Parque está tratando um cachorro-do-mato que chegou no dia 30 de outubro. "Provavelmente vítima de atropelamento, ele passou por cirurgia, com colocação de placa e pino na pata traseira. A fratura ainda não está bem consolidada e, por isso, ele manca, mas está bem, estável, se alimenta normalmente e é tranquilo. Ele será observado pela câmera fotográfica para avaliar o desenvolvimento e a possibilidade de soltura", destaca Samantha.

Conhecer e preservar a biodiversidade

A implantação de armadilhas fotográficas no Jardim Botânico de Bauru, há cinco anos, tem sido fundamental para ampliar o conhecimento sobre a fauna local e fortalecer as estratégias de preservação ambiental. Inserido em um dos maiores fragmentos de Cerrado do estado de São Paulo e reconhecido como Refúgio de Vida Silvestre (RVS), o espaço passou a ir além da conservação da flora e assumiu o desafio de conhecer, monitorar e proteger também a fauna que depende diretamente desse ecossistema.

Segundo o gerente do Jardim Botânico, Luiz Carlos de Almeida Neto, o uso das câmeras surgiu da necessidade de entender o que realmente existe dentro da área protegida. "Para conservar, é essencial saber o que você tem, tanto da flora quanto da fauna. Sem conhecimento, não existe preservação", afirma.

Os registros trouxeram resultados surpreendentes, com a identificação de diversas espécies, inclusive ameaçadas de extinção, como a onça-parda e o tamanduá-bandeira, além de flagrantes de animais com filhotes. Para Luiz Carlos, isso comprova a importância ecológica da área. "Quando você registra onça e tamanduá com filhote, isso mostra que o Jardim Botânico é um refúgio seguro para reprodução. É um indicativo claro de que a reserva tem alta qualidade ambiental", destaca.

As armadilhas também revelaram uma grande diversidade de felinos, como jaguatirica e gato-mourisco, além de reforçarem a riqueza da biodiversidade local. Esses dados não apenas orientam a gestão da unidade, como também subsidiam ações práticas de conservação, como a Campanha de Atropelamento Zero nas estradas do entorno. "As câmeras nos fazem olhar para os dados e pensar: 'E agora, o que vamos fazer com essa informação?'", explica o gerente.

O guarda-parque Marcos César dos Santos Gomes é o responsável pela colocação das armadilhas fotográficas.

Gerente do Jardim Botânico, Luiz Carlos de Almeida Neto (foto: Priscila Medeiros)
Gerente do Jardim Botânico, Luiz Carlos de Almeida Neto (foto: Priscila Medeiros)
O guarda-parque Marcos César dos Santos Gomes é o responsável pela colocação das armadilhas fotográficas (foto: Priscila Medeiros)
O guarda-parque Marcos César dos Santos Gomes é o responsável pela colocação das armadilhas fotográficas (foto: Priscila Medeiros)
Samantha Bittencourt, diretora administrativa do Zoo (foto: Priscila Medeiros)
Samantha Bittencourt, diretora administrativa do Zoo (foto: Priscila Medeiros)
Tamanduá-bandeira com filhote
Tamanduá-bandeira com filhote
Veado com filhote em área do Jardim Botânico
Veado com filhote em área do Jardim Botânico
Gato-mourisco
Gato-mourisco
Filhotes de Jaguatirica
Filhotes de Jaguatirica

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