VACINAÇÃO INFANTIL

EUA alteram calendário vacinal e preocupam comunidade médica

Por Bia Xavier - JP |
| Tempo de leitura: 4 min
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A atualização do calendário de vacinação infantil nos Estados Unidos voltou a colocar a imunização no centro do debate público. A decisão das autoridades norte-americanas de retirar seis vacinas da lista de recomendações universais, transferindo parte delas para o modelo de “decisão clínica compartilhada” ou para grupos específicos de risco, acendeu um sinal de alerta entre especialistas em saúde coletiva.

Embora o novo desenho não elimine completamente essas vacinas, médicos e pesquisadores avaliam que a mudança pode gerar efeitos indiretos importantes, sobretudo na confiança da população e na adesão aos programas de imunização — um fator decisivo para evitar o retorno de doenças já controladas.

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O que muda no calendário infantil dos EUA

No modelo atualizado, seguem como vacinação de rotina para todas as crianças imunizantes contra sarampo, caxumba e rubéola, poliomielite, coqueluche, tétano, difteria, HPV, varicela, além de vacinas contra Hib e doença pneumocócica.

Por outro lado, imunizações como gripe, hepatites A e B, meningococo, rotavírus, Covid-19 e estratégias relacionadas ao vírus sincicial respiratório (VSR) deixam de constar como recomendação universal e passam a depender de avaliação individual entre famílias e profissionais de saúde ou de critérios de maior risco.

Abordagem individual ou risco coletivo?

Para a doutora em Biologia Molecular e Genética Humana pela Fiocruz, Patrícia Vanderborght, responsável pelo setor de Imunização Humana da Rede D'Or/Richet, a mudança pode ser interpretada como uma tentativa de personalização da vacinação, desde que acompanhada de comunicação clara e responsabilidade institucional.

“Trata-se de uma estratégia que transfere parte da decisão para o diálogo entre médico e família, especialmente para grupos de maior risco. O problema surge quando isso acontece em um cenário de desinformação crescente”, avalia.

Já para o patologista clínico Helio Magarinos Torres Filho, diretor médico do Richet, o impacto vai além da esfera individual. “Vacinas universais sustentam a imunidade coletiva, protegendo quem não pode se vacinar. Ao relativizar essa recomendação, o Estado reduz seu papel como garantidor da saúde pública e pressupõe um nível de acesso e letramento em saúde que não é homogêneo nem mesmo em países desenvolvidos”, alerta.

Desinformação e desigualdade em foco

Especialistas concordam que o maior risco não está nos efeitos imediatos da decisão, mas no impacto silencioso e progressivo sobre a confiança da população nas vacinas. Em um ambiente marcado pela circulação de fake news e discursos antivacina, a mudança pode ser interpretada como sinal de menor importância da imunização.

“Quem tem acompanhamento médico regular seguirá protegido. Mas as famílias mais vulneráveis perdem a principal mensagem pública de cuidado coletivo”, aponta a infectologista Rosana Richtmann, consultora em vacinas da Dasa. Segundo ela, decisões desse tipo tendem a aprofundar desigualdades em saúde.

O infectologista Alberto Chebabo, dos laboratórios Bronstein e Sérgio Franco, reforça que as consequências costumam aparecer a médio e longo prazo. “Meses ou anos depois, surgem surtos de meningite, bronquiolite ou gastroenterite em crianças. A lógica da saúde pública não é a mesma do consultório individual”, explica. Ele lembra que, apesar da decisão governamental, a Academia Americana de Pediatria manteve a recomendação dessas vacinas.

Vacinas em debate e por que elas importam

Entre os imunizantes que deixaram de ser universais, especialistas destacam o papel estratégico de cada um:

  • Gripe (Influenza): reduz internações e complicações respiratórias graves em crianças pequenas e diminui a circulação do vírus na comunidade.
  • Hepatites A e B: previnem surtos ligados a água e alimentos contaminados e infecções crônicas associadas a cirrose e câncer de fígado.
  • Rotavírus: evita quadros severos de diarreia e desidratação, ainda uma das principais causas de internação infantil.
  • Meningococo: protege contra uma das formas mais graves de meningite bacteriana, que pode evoluir rapidamente para óbito ou sequelas permanentes.
  • Vírus Sincicial Respiratório (VSR): principal causa de bronquiolite e hospitalização no primeiro ano de vida, com impacto direto na ocupação de UTIs pediátricas.

“Muitas dessas doenças deixaram de ser visíveis justamente pelo sucesso das vacinas. Isso não significa que deixaram de existir”, resume o infectologista Guenael Freire, do Laboratório São Marcos.

Brasil segue caminho oposto

Enquanto os Estados Unidos revisam seu calendário, o Brasil mantém uma das políticas públicas de imunização mais amplas do mundo. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece gratuitamente 19 vacinas de rotina ao longo da vida, além de imunizantes específicos para grupos de risco. No total, o SUS disponibiliza 47 imunobiológicos, entre vacinas, soros e imunoglobulinas.

Além disso, há vacinas aprovadas pela Anvisa e recomendadas por sociedades científicas que estão disponíveis na rede privada, com esquemas ampliados ou maior cobertura de sorotipos, especialmente para meningococo e pneumococo.

Para Patrícia Vanderborght, independentemente do modelo adotado, o ponto central é evitar retrocessos. “Reduzir ou flexibilizar calendários sem vigilância epidemiológica rigorosa pode abrir espaço para o retorno de doenças controladas. A vacinação continua sendo uma das maiores conquistas da saúde pública”, conclui.

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