A inspiração não chega sempre como um raio.
Às vezes ela é apenas um incômodo.
Uma luz baixa, persistente, que não ilumina o caminho inteiro, mas impede que a gente aceite a escuridão como normal.
Dizem que inspiração é o instante do eureka!, o sopro divino, o toque do alto.
Talvez seja.
Mas a que mais me move nasce embaixo — rente ao chão, no nível dos pés cansados.
Gosto de parar em lugares sem glamour. Lugares onde ninguém posa para fotos. Ali, observo o vai e vem das pessoas comuns, essas que não cabem em discursos nem em propagandas. O homem que acorda antes do sol não é personagem: é estrutura. A mulher que já começa o dia cansada não é exceção: é regra.
Isso é inspiração.
Não a que consola, mas a que desperta.
A vida pulsa nesses espaços invisíveis. E pulsa com força.
A riqueza de uma nação não nasce sob lustres, nem em mesas longas de restaurantes onde o preço do prato equivale ao salário de quem serve. Ela nasce no mercado popular, no açougue apertado, na padaria onde um pingado ralo e um pão na chapa sustentam um mês inteiro de tentativas.
Ali, o dinheiro não descansa.
Corre. Escorre. Some.
Distribuição de renda não é teoria: é sobrevivência.
O povo — palavra gasta de tanto uso cínico — é, na prática, a mola propulsora do país. É matéria antes de forma. Corpo antes de discurso. É a Dona Maria que transforma madrugada em marmita. É o carregador que converte coluna em ferramenta. É o peixeiro que empurra a própria dignidade de porta em porta.
Enquanto isso, há quem viva do reflexo desse esforço.
Gente que não produz movimento, apenas administra privilégios.
Gente que desfruta do descanso sem conhecer o cansaço.
“Bora trabalhar porque tem político pra pagar. ”
A frase soa como piada, mas funciona como diagnóstico. Trabalhamos para sustentar castas blindadas pelo poder, que vivem de férias prolongadas, agendas vazias e discursos cheios. Comem do suor alheio, brindam com o cansaço coletivo, dormem tranquilos sobre colchões de desigualdade.
E ainda chamam isso de normalidade institucional.
A inspiração verdadeira não está no alto dos palanques nem nas frases prontas de motivação. Ela está na resistência silenciosa. Na insistência diária de quem, mesmo explorado, continua girando a engrenagem que o esmaga.
Talvez inspiração não seja esperança.
Talvez seja lucidez.
Porque quando se enxerga onde a vida realmente acontece, já não é possível fingir que não se vê.
E isso, mais do que poesia, é um chamado!