OPINIÃO

Inspiração? Ou onde a vida insiste?

Por Sônyah Moreira | A autora é colaboradora de Opinião
| Tempo de leitura: 2 min

A inspiração não chega sempre como um raio.

Às vezes ela é apenas um incômodo.

Uma luz baixa, persistente, que não ilumina o caminho inteiro, mas impede que a gente aceite a escuridão como normal.

Dizem que inspiração é o instante do eureka!, o sopro divino, o toque do alto.

Talvez seja.

Mas a que mais me move nasce embaixo — rente ao chão, no nível dos pés cansados.

Gosto de parar em lugares sem glamour. Lugares onde ninguém posa para fotos. Ali, observo o vai e vem das pessoas comuns, essas que não cabem em discursos nem em propagandas. O homem que acorda antes do sol não é personagem: é estrutura. A mulher que já começa o dia cansada não é exceção: é regra.

Isso é inspiração.

Não a que consola, mas a que desperta.

A vida pulsa nesses espaços invisíveis. E pulsa com força.

A riqueza de uma nação não nasce sob lustres, nem em mesas longas de restaurantes onde o preço do prato equivale ao salário de quem serve. Ela nasce no mercado popular, no açougue apertado, na padaria onde um pingado ralo e um pão na chapa sustentam um mês inteiro de tentativas.

Ali, o dinheiro não descansa.

Corre. Escorre. Some.

Distribuição de renda não é teoria: é sobrevivência.

O povo — palavra gasta de tanto uso cínico — é, na prática, a mola propulsora do país. É matéria antes de forma. Corpo antes de discurso. É a Dona Maria que transforma madrugada em marmita. É o carregador que converte coluna em ferramenta. É o peixeiro que empurra a própria dignidade de porta em porta.

Enquanto isso, há quem viva do reflexo desse esforço.

Gente que não produz movimento, apenas administra privilégios.

Gente que desfruta do descanso sem conhecer o cansaço.

“Bora trabalhar porque tem político pra pagar. ”

A frase soa como piada, mas funciona como diagnóstico. Trabalhamos para sustentar castas blindadas pelo poder, que vivem de férias prolongadas, agendas vazias e discursos cheios. Comem do suor alheio, brindam com o cansaço coletivo, dormem tranquilos sobre colchões de desigualdade.

E ainda chamam isso de normalidade institucional.

A inspiração verdadeira não está no alto dos palanques nem nas frases prontas de motivação. Ela está na resistência silenciosa. Na insistência diária de quem, mesmo explorado, continua girando a engrenagem que o esmaga.

Talvez inspiração não seja esperança.

Talvez seja lucidez.

Porque quando se enxerga onde a vida realmente acontece, já não é possível fingir que não se vê.

E isso, mais do que poesia, é um chamado!

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