CULTURA

Do palco à plateia, o teatro celebra o encontro com o público

Por | | Folhapress
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Ao lado, Othon Bastos, 92 anos, escolheu contar suas experiências em 'Não Me Entrego, Não'; Abaixo, Amir Haddad e Renato Borghi, ambos de 88 anos
Ao lado, Othon Bastos, 92 anos, escolheu contar suas experiências em 'Não Me Entrego, Não'; Abaixo, Amir Haddad e Renato Borghi, ambos de 88 anos

Um anúncio interrompe "Sabius, os Moleques", na metade da apresentação, e informa que a peça de Gerald Thomas, de 71 anos, foi escrita apenas até ali, mostrando o método do autor e diretor de criar enquanto as cenas acontecem. A revelação surpreende e diverte o público, em um exemplo do teatro que fala sobre o teatro e, dessa forma, se aproxima da plateia, uma marca de 2025.

Na montagem de "(Um) Ensaio sobre a Cegueira", do Grupo Galpão, a proximidade é ainda mais íntima. Quatorze pessoas por sessão sobem ao palco a convite do elenco. Vendadas, elas atuam como figurantes, sob a condução dos artistas da companhia mineira.

Além disso, no estilo do teatro épico, os artistas da trupe mineira narram a história e manipulam cenário, luz e trilha sonora diante do público, em uma exposição brechtiana do fazer artístico.

Em outros palcos, veteranos das artes cênicas remexeram os baús de memórias e criaram espetáculos em que dialogam com a plateia por meio de lembranças ?e uma boa dose de saudade de outros tempos.

Othon Bastos, 92 anos, escolheu contar suas experiências em "Não Me Entrego, Não", mural de memórias que estreou no Sesc 14 Bis, na capital paulista, em março, após temporada de sucesso no Rio. "O que adoro fazer é estar em cena. No teatro, você está diretamente ligado ao público, a reação é imediata. Cada sessão é uma estreia, porque o público é diferente", disse em entrevista à reportagem.

Em "Olhos nos Olhos", Ana Lúcia Torre, 80, também reúne lembranças para celebrar as seis décadas de carreira, em um diálogo entre vida pessoal e teatral, ao som de Chico Buarque.

Em um encontro de amigos de personalidades distintas, Amir Haddad e Renato Borghi, ambos de 88 anos, dividiram o palco pela primeira vez no Sesc Consolação para falar sobre as dores e as delícias da vida artística.

Entre as revelações estavam as desavenças entre os fundadores do Teatro Oficina, Zé Celso Martinez Corrêa, Borghi e Haddad.

É impagável o trecho em que Borghi lembra o dia em que fez um acordo com Zé Celso para voltarem ao teatro tradicional e deixarem de lado as performances provocativas e libidinosas que o segundo apreciava, e o primeiro rejeitava. Pouco depois da conversa, Borghi percebeu que o pacto não iria adiante ?as ousadias teatrais continuavam em cena. "Coloquei minha roupa de rua e fui embora", contou sobre o fim da parceria.

Em "Senhora dos Afogados", no Oficina, a ode às artes cênicas aparece de duas formas ?na entrega intensa do elenco à tragédia de Nelson Rodrigues e na homenagem a Zé Celso, cuja imagem em um telão é aplaudida de pé em todos os finais de espetáculo.

A parceria entre os discípulos de Zé e a diretora Monique Gardenberg resulta em uma peça que não teme ser vista como "teatrão", com atores e atrizes que se jogam no chão, rangem os dentes e não escapam do esgar de ódio e medo, como gostava Rodrigues.

No estilo do Oficina, eles também ocupam todos os espaços e convidam o público a se entregar.

Já Os Satyros arriscaram apresentar um espetáculo com um avatar no lugar dos atores na "Peça para Salvar o Mundo", idealizada e escrita por Ivam Cabral e Rodolfo García Vásquez. A própria companhia, no entanto, mostrou que os artistas ainda têm vez em um mundo deslumbrado com a inteligência artificial ?o grupo manteve no repertório o clássico "A Casa de Bernarda Alba", de Federico García Lorca, com 25 atores em cena.

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