RECONHECIMENTO

Bauru tem sua primeira aldeia indígena na área urbana

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação/Ivone Vitto
Suiyãne, Ricardo e Irineu
Suiyãne, Ricardo e Irineu

Desde o início deste mês, Bauru possui, de fato, sua primeira  aldeia indígena formada por várias etnias que vivem na área urbana da cidade.

A aldeia multiétnica Cacique Tibúrcio Tallihu - nome dado em homenagem a um dos líderes indígenas mais atuante na região, que foi ferroviário e funcionário público, atuando no Jardim Botânico – engloba aproximadamente 90 famílias das etnias Kaingang, Guarani, Terena e Kaiapó, entre outras.

Aldeia é a unidade política e social característica dos povos originários, refletindo sua forma própria de organização e preservação cultural. Com essa formação, as lideranças indígenas de Bauru esperam ter o reconhecimento da existência desse povo no meio urbano e a destinação, por parte da Prefeitura Municipal, de uma área para a construção da aldeia urbana.

A cacique escolhida foi Suiyãne Sobrinho Txukarramãe – filha de uma grande líder indígena da região, Jupira Manoel Sobrinho (Jupira Terena), e neta do cacique kayapó Raoni Metuktire, uma das principais lideranças indígenas do país reconhecido mundialmente e membro honorário da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e do patrono da aldeia Cacique Tibúrcio Tallihu.

Suiyãne cresceu em meio à luta indígena, o que a fez seguir o mesmo caminho “Estou na luta desde a barriga da minha mãe”, ressalta. Considerada uma pessoa bem articulada, a cacique prossegue a luta de sua mãe, iniciada há 30 anos, junto ao poder executivo municipal: “Estou continuando essa luta, com diálogo junto com a prefeitura, reivindicando nossos direitos em relação a ter um território para a construção de uma aldeia urbana, para dar continuidade à identidade indígena. Nossa preocupação é em relação ao nosso povo vindo da aldeia para cidade perca a originalidade do indígena. Porque quando a gente sai da aldeia, a gente praticamente deixa o nosso costume, nossa cultura de aldeia, porque temos que nos adaptar à sociedade local e não conseguimos praticar nossa cultura, nossa dança, nosso ritual, a nossa língua materna”, ressalta.

De acordo com o último censo demográfico realizado em 2022, Bauru possui 515 indígenas autodeclarados, o que representa 0,14% da população, que é de 379.146 habitantes, sendo 73 pessoas na faixa de 0 a 14 anos, 359 com idade entre 15 a 59 anos e 83 indígenas com 60 anos ou mais. A quantidade de homens e mulheres é praticamente igual, 257 do sexo masculino e 258 do sexo feminino.

Já para o indígena e professor Irineu Nje’a Terena, a delimitação de uma área traz a reparação histórica ao povo originário que vivia aqui antes do surgimento da cidade. “Bauru e todo o Centro-Oeste Paulista foram construídos em cima de ossos indígenas. Por todos os lados tem artefatos, tem cemitérios. Em 1916, os poucos Kaingangues que viviam aqui, foram levados para Braúna e Arco-Íris, como se fosse gado. Tiraram eles do território que estavam e acabaram com a aldeia. Então, a gente quer também essa reparação histórica. Ela começou com o sangue indígena derramado nessas terras. Queremos abrir um diálogo com o governo municipal, mostrar que existem indígenas e que a gente quer um lugar para a gente poder praticar nossa cultura e contar as nossas histórias”, ressalta Irineu.

A criação da aldeia teve a ajuda de três entidades indígenas: Articulação dos Povos Indígenas da Região Sudeste (ARPINSUDESTE), Mulheres Indígenas do Centro Oeste Paulista (AMINOP) e Associação Renascer em Apoio à Cultura Indígena (ARACI) Ponto de Memória/Cultura. Enquanto a aldeia física não vira realidade, o grupo se reunirá na sede da ARACI, na Vila Independência.

Aldeias urbanas

A primeira aldeia a ser criada em um contexto urbano no país foi a Aldeia Marçal de Souza, em Campo Grande (MS) em 1998, representando o surgimento de comunidades indígenas em meio a cidades. De acordo com Irineu Nje’a Terena, atualmente há 13 aldeias urbanas em Campo Grande.

Plano Diretor

Durante a audiência pública sobre o Plano Diretor, realizada no último dia 17, as lideranças questionaram a ausência da destinação de uma área dentro das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), já que a municipalidade possui um projeto de iniciativa popular para a destinação da área, feita pelo arquiteto e professor José Xaides.

Eles também estão estranhando essa invisibilidade por parte do poder público: “Por isso que a gente tá reivindicando o nosso direito, porque a gente sabe que nós temos direito dentro da cidade, pelo Estatuto das Cidades, só que nós não estamos tendo visibilidade nessas coisas, nessas questões da política pública. A política dos povos indígenas, sempre é encostada, sempre é ignorada” frisa Suiyãne.

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