Há quase um século, o bairro da Bela Vista se firmou como berço cultural de Bauru. Foi ali, na atual Praça dos Expedicionários, que em 1934 nasceu a PRG-8 – Bauru Rádio Clube, a primeira emissora de rádio da cidade. Seus estúdios testemunharam, na década de 1940, entre tantos outros artistas, apresentações da dupla Cascatinha & Inhana, que imortalizaria clássicos da música sertaneja como "Índia", "Meu Primeiro Amor" e "Flor do Cafezal".
Ainda na mesma praça, entre os anos 1940 e 1950, o Cine Bela Vista se consolidou como espaço de encontro social e cultural do bairro, reunindo moradores em torno da magia da sétima arte. O pioneirismo atingiu seu ápice em 1965, quando João Simonetti fundou a TV Bauru (atual TV TEM), também na Praça dos Expedicionários, emissora que se tornou a primeira do interior da América Latina fora dos grandes centros e capitais, com apresentações ao vivo em programas musicais e de teleteatro, entre outras atrações artísticas.
Décadas depois, esse legado de inovação e efervescência cultural ganha um novo capítulo. Neste mês, o artista plástico Paulo Pino inaugura o Espaço Cultural Wynara, resgatando a vocação artística que sempre habitou a Bela Vista. O nome escolhido carrega simbolismo: no dicionário Nhenety Kariri-Xoco, Wynara (lê-se “uinará”) significa "terra iluminada", segundo Pino uma metáfora perfeita para o projeto que pretende iluminar a produção artística regional.
"Contribuirmos para reacender a vocação cultural da Bela Vista é uma forma poderosa de resgatar a sua história, fortalecer a identidade local, valorizar a memória coletiva e inspirar novas gerações", explica o diretor artístico do espaço.
Paulistano que viveu em Bauru nos anos 1980, Pino desde 1996 desenvolve colagens tridimensionais com papel e pigmentos diversos sobre tela. De volta como morador na cidade, sua proposta para o Wynara é dar espaço e voz, preferencialmente, a artistas, curadores e produtores culturais que ainda não acessam formalmente as instituições públicas de cultura locais.
Exposições
A abertura do Wynara acontece às 20h de 23 de outubro, com duas mostras gratuitas ao público, que dialogam entre história e contemporaneidade. "Relevos cromáticos", com curadoria do artista sonoro e produtor cultural Marcelo Bressanin, apresenta sete obras inéditas em Bauru, produzidas por Paulo Pino em 2024, explorando a volumetria do papel e diversas técnicas de pintura em colagens sobre tela.
Já "Um chão para ser pisado com os olhos" reúne duas séries do artista Ronaldo Gifalli (Gifa) e conta com curadoria de Priscila Leonel (D. Cilá), artista, educadora e pesquisadora da Unesp. Uma delas, "Piso sobre piso", parte da observação do piso hexagonal vermelhão da Pinacoteca Municipal de Bauru para criar lajotas autorais, enquanto "Os olhos são pequenos planetas com paisagens dentro" se inspira no poema "Mapa de anatomia: o olho", de Cecília Meireles.
Ambas as exposições seguem até 7 de dezembro de 2025, de terças às sextas-feiras, das 14h às 20h, e aos sábados e domingos, das 10h às 20h.
Durante o evento de inauguração, será anunciada a abertura das inscrições para o “Edital Espaço Cultural Wynara – 1ª Edição”, um chamamento público de projetos artísticos a serem contemplados com uma mostra coletiva em 2026. Interessados podem obter mais informações pelo site www.wynara.com.br, a partir de 24 de outubro.
Outros eventos
A programação do Wynara também oferece oficinas, performances, intervenções, shows, batalhas de arte e bate-papos com artistas.
Em 26 de outubro, às 18h, estreia o “Happy art hours”. Em sua primeira edição, Pino, Gifa, D. Cilá e Bressanin – os artistas e curadores das exposições em cartaz – batem papo com o público sobre os processos criativos das obras e sobre os critérios das curadorias. Duas semanas depois, em 9 de novembro, é a vez de Lairana, artista visual e professora aposentada da Unesp, apresentar ao público as particularidades de suas criações, nas diversas fases de sua carreira.
Estes encontros com o público são gratuitos e, assim como as exposições, o Wynara sugere a doação – não obrigatória – de um quilo de alimentos não perecíveis a serem doados trimestralmente para instituições assistenciais.
No dia 31 de outubro, das 15h às 17h, acontece a oficina de Monotipia, com Mateus Faria. A monotipia é uma técnica que combina elementos do desenho, pintura e gravura: o artista aplica tinta ou pigmento sobre uma superfície lisa e depois transfere a imagem para o papel mediante pressão. Como resultado, obtém-se uma impressão única e irreproduzível, daí o nome da técnica. Serão disponibilizadas gratuitamente 20 vagas, por ordem de chegada.
Segundo o diretor artístico, o Wynara quer aproveitar todo o potencial do espaço para manifestações artísticas. Por isso, trimestralmente, um projeto contínuo convida nomes de diversas linguagens para ocuparem o portão de acesso ao centro cultural. Com obra inédita em técnica de graffiti, entre outubro e dezembro, é a vez de João Risú, artista visual participante da mostra “Fósseis Urbanos”, em 2024, e que neste ano integrou um projeto artístico com o Bauru Basket, criando ilustração inspirada na identidade do time esportivo.
"O Wynara é um convite para que artistas e público se encontrem em um território livre de criação e diálogo. Queremos que este espaço seja uma ponte entre gerações, conectando o legado cultural da Bela Vista com as manifestações artísticas contemporâneas de Bauru e região", convida Pino.
SERVIÇO
Exposições: "Relevos cromáticos" e "Um chão para ser pisado com os olhos"
Local: Espaço Cultural Wynara
Endereço: Rua Marçal de Arruda Campos, 5-71, Bela Vista, Bauru (SP)
Visitação: de 23 de outubro a 7 de dezembro de 2025, de terças às sextas-feiras, das 14h às 20h, e aos sábados e domingos, das 10h às 20h.
Entrada: gratuita (sugerida a doação, não obrigatória, de um quilo de alimentos não perecíveis a serem doados trimestralmente para instituições assistenciais)
Website: www.wynara.com.br
E-mail: wynara.artes@gmail.com