No coração do Terra Branca, em Bauru, um terreno antes esquecido virou símbolo de cidadania, cuidado coletivo e florescimento — no sentido literal. O que era depósito de entulho agora abriga flores, árvores frutíferas, livros para doação e até um varal solidário, graças ao empenho de 11 vizinhos que transformaram uma praça com as próprias mãos. O grupo, no entanto, ainda enfrenta dificuldades e pede apoio da Prefeitura para manter viva a iniciativa que já virou referência no bairro.
Curiosamente, a transformação começou pelas mãos de alguém com um nome simbólico: Florice. Foi ela, a aposentada Florice Silva, quem decidiu, em 2020, no auge da pandemia, transformar um terreno tomado pelo lixo em um jardim. Com enxada e mudas, ela passou a limpar o espaço e a plantar flores. Logo, ganhou a ajuda da vizinha Dinéia Rasi e de outros voluntários.
O que antes era depósito de entulho hoje abriga flores. Árvores frutíferas — entre elas pitangueira, abacateira e amoreira — foram plantadas para dar sombra e atrair passarinhos. O espaço se tornou ponto de encontro de famílias, que levam crianças para brincar e idosos para caminhar. Foi na praça, aliás, que Dinéia conheceu Florice e começou a amizade que culminou na iniciativa.
Além das plantas, o grupo instalou um pequeno armário com livros para doação e um varal para atender os moradores em situação de rua que passam pelo local e precisam de novas vestimentas.
Os moradores se revezam em tarefas como regar as plantas, aparar a grama, pintar bancos e recolher resíduos. No entanto, enfrentam dificuldades. As lixeiras instaladas pela Prefeitura foram depredadas e não recebem manutenção. Segundo Dinéia, a coleta de lixo é irregular. "Ligamos para a Emdurb e para a Semma, mas cada órgão joga a responsabilidade para o outro. Em três anos, só vimos a varrição da rua duas vezes", afirma.
As árvores da praça também sofrem com podas mal executadas. Galhos cortados de forma irregular comprometem a saúde das espécies. Dinéia relembra o caso de uma poda em um pé de café que destruiu os frutos da planta. Os moradores pedem que a prefeitura envie equipes capacitadas para realizar o serviço corretamente.
Outra reivindicação é a instalação de um ponto de água dentro da praça. Hoje, os voluntários precisam carregar baldes ou improvisar mangueiras longas para manter o jardim. A medida, dizem, facilitaria o trabalho e garantiria a sobrevivência das plantas em períodos de estiagem.
Outro problema é o desperdício de água provocado pelo esvaziamento de piscinas instaladas nas proximidades. Moradores relatam que milhares de litros escorrem diariamente pela rua Bolívia, formando poças e lama. Eles buscam formas de captar o recurso para utilizá-lo na própria praça.
A comunidade também reclama da ausência de equipamentos de lazer. O grupo solicita a instalação de novos bancos, manutenção do parquinho e maior frequência nos serviços de zeladoria. "Precisávamos de um vereador que olhasse para o bairro. Aqui não temos voz na Câmara", afirmou Florice.
O JCNET procurou a Prefeitura no dia 11 de setembro buscando esclarecimentos sobre a limpeza e as demandas dos moradores, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.