OPINIÃO

Pintou uma química e deu match

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

Tudo, no mundo, se resume a uma questão de química. O cientista inglês Tim James escreveu um livro já publicado no Brasil, sob o título "Como a tabela periódica pode explicar (quase) tudo". O que James faz é recuperar a importância e o comportamento de cada elemento químico, dos 118 que hoje compõem a tabela periódica.

Chega-se à conclusão, depois de lidas as 240 páginas do livro, que no modo de vida contemporânea, entre a pretendida solidez e a liquidez e a fluidez que costuma tomar conta de tudo, saber qual a química envolvida parece algo vital.

O presidente Luiz Inacio Lula da Silva, reconheceu ter havido uma química no seu encontro de 39 segundos com o seu colega Donald Trump. O termo "química", foi usado pelo norte-americano para falar da impressão que teve da interação com Lula.

O ex-presidente Jair Bolsonaro, certa vez confessou que estava passeando de moto pelas cidades-satélites de Brasília quando viu uma jovem bem vestida, de sainha curta. "Pintou um clima" e ele parou para conferir. Tratava-se de um encontro de imigrantes venezuelanos. Bolsonaro só quis ilustrar que venezuelanos estão por toda parte, fugidos da fome e do difícil regime bolivariano de Maduro.

Pintar clima, ou uma química, geralmente nasce de uma emoção repentina ou surpresa. Muitas vezes com conotações eróticas, como aquela que efervesceu na personagem de Elena Ferrante, em sua tetralogia napolitana. Nino Sarratore acordou pela manhã com vontade de fazer xixi, foi ao banheiro e encontrou a faxineira em trabalho de limpeza. Processos químicos cerebrais regem as comunicações entre neurônios, influenciam emoções e podem ocasionar desequilíbrios comportamentais. Serotonina, dopamina, endorfina, são importantes no vínculo social e na atração.

"Pintou uma química", foi a desculpa que o marido deu à esposa que o flagrou no banheiro com a diarista velha e gorda, forçada a dar o que não queria.

Quero crer que a química política seja diferente, embora Freud sempre tenha alertado que "o sexo domina o mundo". O presidente Trump nunca foi amigo de Bolsonaro, mas ambos têm histórias de vida que se sobrepõem. Trump também tentou impedir a posse de Joe Biden, assim como Bolsonaro tentou um golpe de Estado para impedir Lula de assumir a Presidência da República.

Os observadores internacionais acham que um longo caminho ainda terá que ser percorrido até que Trump abra à Lula as portas da esperança da Casa Branca. O oba-oba ainda não se justifica. Trump gostou de Lula e diz que só faz negociação com quem gosta. Em matéria de negócios, geralmente o que se quer é a parte do leão. O tarifaço pode até ser amenizado, mesmo porque, é absurdamente exagerado. No resto, as divergências entre Lula e Trump são irreconciliáveis: das mudanças climáticas à noção de democracia de cada um; do genocídio na faixa de Gaza à regulação de conteúdos nas Bigtechs. O Brasil está indo mal. Eles só conseguem sair bem quando trabalham conosco. Sem nós, eles fracassaram. Palavras de Trump na ONU. Muito diferentes de uma declaração de amor.

Tomara que a química ajude Lula a abrir o diálogo com Trump. Na vida política, carisma e boas intenções não garantem muita coisa. O momento da vida nacional está repleto de desafios. Um deles é, no futuro, não ficar tanto na dependência de um país muy amigo.

Na linguagem dos aplicativos de namoro, "deu Match". O matchmaking ocorre quando duas pessoas se curtem, mostram afinidade, formam um bom par. O Tinder, com 55 bilhões de Matchs, garante que funciona, embora os primeiros contatos sejam virtuais. Um pouco diferente do "amor à primeira vista", do "jeito que ele me olha". Muitos vigaristas povoam a internet, atrás de pessoas ingênuas e incautas, para tirar proveito financeiro.

É bom não fazer muita festa e aguardar o primeiro encontro, olho no olho. Bons propósitos não se contabilizam. Nos negócios, vale o pragmatismo.

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