ENTREVISTA DA SEMANA

Vera Lucia Messias Fialho Capellini: lições de vida e esperança

Por Tisa Moraes |
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo pessoal
Vera Capellini, entrevistada da semana
Vera Capellini, entrevistada da semana

A história de Vera Lucia Messias Fialho Capellini, 58 anos, é marcada por desafios e dedicação à educação. Primeira de sua família a conquistar um diploma universitário, tornou-se professora doutora e referência em inclusão escolar. Casada com Claudius, com quem tem três filhos - Marcus Vinicius, Nathália e Luiz Gustavus - também celebra o papel de avó de Gabriel e aguarda a chegada de mais um neto em 2026.

Nascida em São Paulo, mas com início da infância vivido na roça, Vera trabalhou desde cedo como babá e empregada doméstica. Com o despertar do interesse pelo ensino superior, fez pedagogia com ênfase em educação especial e não parou mais. Da rede estadual de ensino, onde atuou intensamente em prol de alunos com deficiência e superdotação, tornou-se docente da Unesp de Bauru após concluir mestrado e doutorado na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Responsável por projetos que formaram milhares de professores para inclusão escolar no Brasil, também levou suas experiências a países como Espanha, Portugal, Alemanha e até a Harvard, nos Estados Unidos.

Após vencer um câncer em 2017, Vera foi eleita diretora da Faculdade de Ciências (FC), cuja gestão termina na próxima semana, e ascendeu ao patamar de professora titular do Departamento de Educação. Tendo como guia a frase "se tem vida, tem jeito", Vera segue inspirando alunos e colegas com sua trajetória pessoal e profissional de esperança e transformação.

JC - Como foi sua infância e adolescência?

Vera - Meus pais eram da roça, em Jales, e tentaram a vida em São Paulo, mas acabaram retornando. Aos 12 anos, morando em Santa Bárbara d'Oeste, fui trabalhar na casa da minha professora como babá e, depois, empregada doméstica. Ela era culta, tocava acordeão, ouvia músicas clássicas e me apaixonei por esta forma erudita dela. Sempre fui muito estudiosa e, com 15 anos, ela quis me ajudar a achar outro emprego. Fui trabalhar em um escritório de contabilidade e cursar edificações na Etec. No curso, o professor Valdir, de história, disse que eu era de humanas. Mas concluí o curso e fiquei trabalhando na indústria têxtil Covolan, onde entrei como auxiliar de escritório e saí como secretária do diretor aos 23 anos. Um ano depois do curso, lembrei do Valdir e decidi cursar pedagogia com habilitação em educação especial na Unimep, em Piracicaba.

JC - Como foi este início?

Vera - Foi difícil porque, no primeiro ano, em 1988, meu noivo morreu em um acidente de carro. Fiquei muito mal, mas, com resiliência e a certeza de que a educação transformaria minha vida, consegui continuar estudando. Até que, na Páscoa de 1990, fui na casa da família da minha amiga Adriana, em Brotas, quando conheci o Claudius, que era de Bauru. Nós nos casamos em 1992 e estamos juntos até hoje. No mesmo ano, comecei a dar aulas na educação especial da rede estadual de Bauru e nunca mais parei. Eu me tornei efetiva, depois coordenadora, diretora e supervisora. Quando fui coordenadora da educação especial na Diretoria Regional de Ensino, começaram as discussões sobre inclusão e atuei para que duas turmas de classe especial fossem as primeiras do Estado matriculadas em classes comuns, a partir de um projeto no qual as salas especiais foram transformadas em salas de recursos.

JC - Quando ingressou na universidade?

Vera - Achava que não era para mim, mas fui convencida pela professora Maria Amélia Almeida. Concluí o mestrado em educação especial na Ufscar em 2001 e engatei o doutorado, que terminei em 2004. Ainda no mestrado, dei aulas na Facol, em Lençóis Paulista, na Unip e, como conferencista, na Unesp. Já em 2004, fui para a USC e, em 2006, me efetivei na Unesp para prática de ensino e educação especial, área na qual dou aulas até hoje. Lá, coordenei um projeto por meio de um edital do MEC, em parceria da Unesp com a Ufscar, para formação continuada em educação especial de 6 mil professores do Brasil inteiro, de 2008 a 2012. Por meio de um projeto aprovado pela Fapesp, em 2012, fiz pós-doutorado na Espanha, onde dei aulas e acompanhei o trabalho de professoras com alunos com deficiência em contexto de inclusão.

JC - Pode citar outras conquistas importantes?

Vera - Ao retornar da Espanha, obtive o título de livre docência. Já de 2014 a 2020, coordenei um projeto de educação com especialização em deficiência auditiva, visual, intelectual e física, TEA e altas habilidades para 6 mil professores da rede estadual. A Olga Maria Rolim Rodrigues e eu também fizemos um projeto com alunos com altas habilidades na escola João Pedro Fernandes, onde criamos a primeira sala de recursos nesta área em Bauru. Em 2017, me tornei vice-diretora da FC, quando fui diagnosticada com câncer de pulmão. A doença mexeu muito comigo, mas fui curada e prometi a Deus que valorizaria ainda mais minha vida e tudo o que faço. Com a pandemia, o Núcleo Técnico de Atenção Psicossocial (NTAPS), projeto de prevenção ao suicídio do campus que coordeno, iniciado em 2016, passou a atender todas as unidades da Unesp de forma online, chegando a 5 mil alunos só em 2024.

JC - E ainda tornou-se diretora da FC.


Vera - Assumi em 2021 lutando, entre outras frentes, por novos radares para o IPMet. Nesse meio tempo, em 2023, me tornei a única professora titular mulher do campus e única pedagoga titular de toda a Unesp. Naquele ano, fui a Harvard conhecer a inclusão no ensino superior de lá e contar sobre nosso projeto na educação básica. Também já fui à Alemanha, Irlanda e Portugal a trabalho. Sou ainda presidente da Comissão de Acessibilidade e Inclusão da Unesp desde 2021, mesmo ano em que ajudei a escrever a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva do Estado de São Paulo.

JC - Como se sente ao reviver esta trajetória?

Vera - A frase que move meu trabalho é "se tem vida, tem jeito", da psicóloga Karina Fukumitsu, e a crônica "O Mundo", de "O Livro dos Abraços", de Eduardo Galeano, traduz um pouco de mim. Tive a oportunidade de renascer e quero viver pelo menos até 100 anos. Quero curtir minha família, mas acho que ainda posso contribuir muito para a Unesp, Bauru e região e o Brasil. Tivemos diversos avanços que não citei aqui e, quando fecho os olhos, vejo que tudo valeu a pena. É uma carreira que só foi possível por ter meu alicerce: minha família de origem e a que constituí.

Com a reitora da Unesp, Maysa Furlan, neste mês no campus de Bauru
Com a reitora da Unesp, Maysa Furlan, neste mês no campus de Bauru
Vera com a nora Lyvia, os filhos Marcus Vinicius e Luiz Gustavus, o neto Gabriel, a nora Tayna, o marido Claudius, a filha Nathália e o genro Eric
Vera com a nora Lyvia, os filhos Marcus Vinicius e Luiz Gustavus, o neto Gabriel, a nora Tayna, o marido Claudius, a filha Nathália e o genro Eric

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