Aos 69 anos, a maestrina bauruense Hilda Campos guarda na memória a menina que subia em árvores na rua Quinze de Novembro e, aos 10 anos, descobriu no piano o caminho para uma vida inteira dedicada à música. Incentivada pelo pai e guiada por mestras de Bauru, mergulhou nos estudos e, formada pianista profissional pelo Conservatório Pio XII, nunca mais deixou de ensinar e tocar.
Mãe de Dariê, 46 anos, Hilda construiu carreira como pianista acompanhante, professora, coralista e regente, sempre dividindo-se entre ensaios, apresentações e cursos em diferentes cidades do País. Tocou em igrejas, festivais, acompanhou cantores e instrumentistas, fez graduação em música e se especializou em piano popular com Amilton Godoy, do Zimbo Trio.
Como maestrina, esteve à frente de diversos corais em Bauru. Com décadas de imersão na música, Hilda mostra nesta entrevista que segue - agora em ritmo mais leve - com o brilho no olhar e o sorriso de quem transformou notas em histórias e fez da arte sua forma de viver. Leia os principais trechos.
JC - Como foi seu primeiro contato com o piano?
Hilda - Até os 10 anos, eu era bem moleca. Mas meu pai me colocou para estudar acordeão com uma vizinha que dava aulas de diversos instrumentos. Um dia, vi o piano dela aberto e falei que queria estudar aquilo. Tinha 10 anos e, em menos de um semestre, aprendi tudo o que a vizinha sabia. Então, em 1967, fui estudar com a Terezinha Bergamini; no ano seguinte, com a dona Dina; no terceiro, com a Alcina Vitória, e no quarto, com a Helenice de Jesus Lavor. Aos 13 anos, comecei a tocar no coral da Igreja Metodista e, com 15, ganhei um piano do meu pai.
JC - Formou-se pianista profissional quando?
Hilda - Fui ter aulas com a dona Nida Marchioni, uma das melhores de Bauru, com quem estudei técnica durante um ano. Passei a ter aulas com a dona Daisy Ribeiro Barone e me formei em 1975 pelo Conservatório Pio XII, que é bem difícil, mas já estava dando aulas em casa. Depois, a dona Vera Marcondes me convidou para tocar no Coral Iteano, da ITE, porque eu já era pianista acompanhante, como me consolidei profissionalmente, e não solista. Fiquei lá até 1991, com intervalos, e depois me tornei regente do coral. Mas toquei também na Igreja Presbiteriana até 2002 e fui professora de flauta e audição de música erudita na Unesp.
JC - Como era a rotina como pianista?
Hilda - Por muitos anos, tive ensaio todos os dias para apresentações em encontros de corais e festivais em várias cidades. Eu gostava de tocar coisas do Tom Jobim, piano popular e, quando terminei a faculdade de música na USC, fui estudar piano no Centro Livre de Aprendizagem Musical (Clam), em São Paulo. Lá, tive aulas com o Amilton Godoy e, em três meses, ele me deu 'assunto' para três anos. Em 1982, uma unidade do Clam foi aberta no Conservatório Pio XII e dei aulas de piano popular lá por dois anos e meio. Tive muitos alunos, inclusive professoras de piano erudito. Em casa, continuei dando aulas até 2002 e só retomei no ano passado, na escola Clave de Sol, do George Vidal. Hoje, optei por ficar com apenas um aluno em casa.
JC - Como foi a experiência como corista e regente?
Hilda - Em 1974, comecei a fazer cursos de férias em diversas cidades. Fiz aula de música antiga, cravo e canto gregoriano na 1.ª Bienal Internacional de Música, na USP; vi o pianista Arthur Moreira Lima tocar no Festival de Campos de Jordão; participei de uma apresentação com 600 cantores em Curitiba. Era uma delícia. Mas, quando tive minha filha, desacelerei e fiquei dando aulas de piano, acompanhando os corais. Retomei os cursos em 1979, em Campos Jordão, onde fiz regência de coral na inauguração do auditório Claudio Santoro. Ainda tive aula com o Levino da Fonseca, um dos fundadores da Escola de Música de Brasília, e fiz regência orquestral em Campos do Jordão com o maestro Lutero Rodrigues. Além disso, de 1979 a 1982, houve um grande movimento de coral no Estado, no qual a Vera era regente em Bauru.
JC - Foi maestrina de muitos corais?
Hilda - Regi o coral da Igreja Metodista e, a partir de 1979, o coral da Escola Técnica da ITE, sempre fazendo tudo ao mesmo tempo, regendo, tocando, dando aulas, fazendo cursos e apresentações como pianista acompanhante. Nunca perdi chances. Já de 1979 a 1986, regi o Coral da Telesp, que levei para Recife de ônibus, uma loucura. Também assumi o coral da ITE de 1993 a 1994 e de 1997 a 2004, quando gravamos um CD maravilhoso. Nesse intervalo, comecei a ensaiar no Dante Alighieri, mas em 1996 entraram algumas pessoas da Sociedade Italiana e nasceu o Coral Italiano. Com eles, gravei dois CDs e lá fiquei de 1995 a 2016. Viajamos bastante e chegamos a nos apresentar no 4.º Encontro Internacional de Coros Italianos do Mercosul, em Santa Maria, e ir a Montevidéu, no Uruguai.
JC - Como pianista acompanhante, quais momentos destaca?
Hilda - Em 1975 e 1977, toquei piano em recital do barítono italiano (radicado no Brasil) Rio Novello e chegamos a ir de trem até Campo Grande. Toquei com muito cantor e instrumentista. Em 1989, a convite do empresário Guilherme Ferraz, montei a Orquestra Arte e Cultura de Bauru. Já em 2017, montei o projeto Pró-Música da ABDA.
O QUE DIZ A MAESTRINA
'Estudei piano popular com Amilton Godoy e, em três meses, ele me deu assunto para três anos'
"Fiz tudo ao mesmo tempo: regi, toquei, dei aulas, fiz cursos e apresentações. Nunca perdi chances'
'Em 2017, montei o projeto Pró-Música da ABDA. Defini o que precisávamos e coloquei a mão na massa'