Problema histórico de Bauru, a fila de espera por vagas de internação não tem como solução somente a ampliação de leitos hospitalares no município. Mais do que uma grave demanda de saúde, o tema também envolve a insuficiência de serviços na área de assistência social. No Hospital Manoel de Abreu, 20 pacientes que já receberam alta médica seguem na unidade por não ter para onde ir.
São pessoas em situação de vulnerabilidade, que não possuem mais vínculos familiares e emprego. Segundo o Departamento Regional de Saúde (DRS) de Bauru, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Saúde, responsável pelo hospital, elas aguardam acolhimento por parte do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) das prefeituras de seus municípios de origem.
Em nota, a Secretaria Municipal de Assistência Social informou que não há pessoas em situação de rua com alta médica pendente de acolhimento em Bauru. Destacou que, entre os moradores da cidade atualmente internados, há cinco idosos, quatro deles com residência fixa e vínculo familiar.
"Apenas um paciente não possui moradia nem rede de apoio familiar. Neste caso específico, o Creas fará encaminhamento para acolhimento institucional, caso o idoso manifeste interesse", pontuou, esclarecendo que a pasta realiza visitas semanais ao Manoel de Abreu para acompanhamento de quem apresenta demandas sociais.

Lokadora protocolou representação para que o Ministério Público e a Defensoria Pública investiguem o caso (Foto: Pedro Romualdo/Câmara Municipal)
Segundo o DRS de Bauru, no entanto, dos 20 pacientes com alta médica que permaneciam na unidade até esta terça-feira (1), 15 são do município e apenas cinco de cidades da região. Informou também que realizou cinco reuniões com representantes da Prefeitura de Bauru, do Creas e do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) a fim de discutir a situação.
IMPASSE
Ao que parece, contudo, o impasse está longe de ser solucionado. O hospital recebe pacientes de 68 municípios da região, porém, conforme relata o vereador Júnior Lokadora, o maior número é de Bauru. Em meados de maio, ele esteve na unidade e afirma ter constatado a presença de 23 pessoas com a chamada "alta social", 19 das quais residentes na cidade.
Diante da ocupação indevida dos leitos, o parlamentar protocolou uma representação junto ao Ministério Público e à Defensoria Pública do Estado de São Paulo para que apurem eventual omissão do poder público, cobrem a oferta de mais vagas em centros de acolhimento e responsabilizem os gestores envolvidos, sejam eles do Estado ou da Prefeitura de Bauru.
O hospital Manoel de Abreu conta com 79 leitos de internação de média complexidade para atendimento a pacientes que precisam de cuidados prolongados, como doentes crônicos, para tratamento de dependentes químicos com intoxicação aguda e de pessoas com tuberculose. Desta forma, funciona como retaguarda às unidades hospitalares de maior complexidade mas, com 25% de sua capacidade operando como uma espécie de abrigo ou hotel a pacientes com alta médica, acaba por não contribuir como deveria para otimizar a ocupação dos leitos nestes outros serviços.
FILA DE ESPERA
Para se ter ideia, na noite desta terça-feira (1), 54 pacientes estavam em unidades de urgência da rede municipal de saúde aguardando vaga internação hospitalar, entre eles um idoso de 73 anos, há cinco dias no Pronto-Socorro Central à espera de um leito de neurocirurgia. Frente ao que classificou como "jogo de empurra" entre o Executivo bauruense e o governo estadual, Lokadora afirmou ser urgente o estabelecimento de diálogo entre os entes para garantir à população o direito constitucional à saúde.
"É estarrecedor testemunhar isso na nossa cidade. Enquanto pessoas morrem esperando leitos, outras os ocupam porque não estão sendo acolhidas. Não podemos admitir que as pessoas continuem a padecer e morrer nos corredores das UPAs à espera de um tratamento digno", lamenta.