OPINIÃO

A crise do Pix e o recuo do governo

Por Zarcillo Barbosa |
| Tempo de leitura: 3 min

O estrago já estava feito quando Lula mandou cancelar a norma da Receita Federal que ampliaria a fiscalização das transações via Pix. Ponto para a oposição e zero para a estratégia de comunicação do governo. Nem o presidente e Casa Civil tinham conhecimento da medida até a repercussão nas redes sociais.

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), foi o grande herói da jornada ao denunciar no Instagram que o governo Lula iria monitorar os gastos do povo e que o Pix poderia ser taxado no futuro. Podem acusá-lo de ter dado origem a uma onda de desinformação. O deputado ainda conseguiu colocar a pecha neste governo, que pode ser amante da democracia, mas adora impostos e taxas. Com a live, Nikolas atingiu 13,5 milhões de seguidores na quarta-feira. "Se era fake, porque revogou?" O parlamentar ainda lembrou da "taxa da blusinha", que Lula disse que não ia acontecer, mas a comprinha da China acabou taxada.

Com a boataria que se espalhou, a quantidade de operações por Pix teve uma queda de 16% entre 4 e 10 de janeiro na comparação de igual período do ano passado. Os golpistas começaram a enviar boletos aos correntistas, com a logomarca do Ministério da Fazenda, cobrando a parte do fisco por transferências já realizadas. Uma lambança. Para mostrar à população que não era nada disso, Lula da Silva gravou um vídeo fazendo transferência de R$ 1.013,00 para o Corinthians quitar a dívida da construção do estádio e negando a intenção de começar a taxar o Pix. Risível. Outras tentativas oficiais de esclarecimentos também deram em nada.

Agora é esperar pela autocrítica do governo. Fake news sobre a criação de novos impostos só se espalharam porque havia um terreno fértil. O Fisco iniciou 2025 exigindo das instituições financeiras conhecidas como fintechs, bancos digitais e operadoras de cartões de crédito a notificar movimentações financeiras de pessoas físicas acima de R$ 5 mil por mês. Os bancos tradicionais há muito têm regra idêntica. É um instrumento para detectar sonegadores, dinheiro do tráfico, dos corruptos. O Pix é o que sobra para os motoristas de aplicativo, entregadores e profissionais autônomos, porque é de graça. O erro não estava no mérito, mas na execução. Lula mandou trocar o ministro das Comunicações porque "o povo não consegue ver o governo nas suas virtudes". O novo titular, Sidônio Palmeira, especialista em marketing eleitoral, pelo jeito nem conseguiu começar a trabalhar, tamanha a desinformação gerada pelo "caso Pix". A única coisa que a medida produziu foi medo, confusão e queda nas transações.

Agora, Lula tem que procurar Congresso e convencer os parlamentares a votar um projeto de lei que permita à Receita fiscalizar e punir sonegadores; não é o caso do pipoqueiro e da diarista. O Pix não pode ser o paraíso para quem não quer pagar os impostos necessários à educação, a saúde e à infraestrutura.

Fica a lição, que vale para qualquer governante seja ele presidente, governador ou perfeito. Tudo tem que ser explicado mediante uma comunicação ampla, de modo a ser compreendida pela população e prevenir as narrativas negativas.

O Pix existe nos Estados Unidos (Venmo) e na Índia. Os comerciantes argentinos têm conta em bancos aqui no Brasil para terem Pix e facilitar vendas para os turistas brasileiros. É rápido e seguro. Começou em 2020 e hoje é o meio de pagamento mais utilizado pelos brasileiros, superando o uso do dinheiro em espécie e substituindo as operações taxadas de DOC e Ted. Mais de um trilhão de reais movimentados desde a origem.

Pouco mais de 76% da população se utilizam desse meio de transferência de recursos que pode ser utilizado a qualquer hora do dia, de forma gratuita para pessoas físicas.

 O autor é jornalista e articulista

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