Uma estratégia diferente das empregadas até agora contra a doença de Alzheimer acena com a possibilidade de restaurar a memória. Um estudo liderado por cientistas brasileiros mostrou que uma substância derivada da cetamina restitui a capacidade de produzir as proteínas necessárias à comunicação entre os neurônios no cérebro. Sem essas proteínas, uma pessoa não guarda fatos aprendidos. A molécula HNK faz com que os neurônios possam de novo gravar aprendizado, um processo que a ciência chama de consolidação da memória. A fixação da memória ocorre no hipocampo por meio de síntese de proteínas.
"Se não houver síntese de proteínas, uma pessoa esquece o que aprendeu em até duas horas", explica o neurocientista Sergio Ferreira, professor titular dos institutos de Biofísica e de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos autores do estudo, liderado pelo neurocientista Felipe Ribeiro, também da UFRJ.
É por isso que pessoas com Alzheimer se recordam de fatos antigos, que já estavam consolidados e não foram destruídos, mas não daqueles ocorridos após adoecerem. As placas de beta-amiloide associadas à doença prejudicam a síntese de proteínas e a comunicação entre os neurônios. O Alzheimer lhes rouba a capacidade de formar novas lembranças. Não é raro que uma pessoa afetada repita a mesma pergunta muitas vezes. A resposta nunca fica gravada.
"Se tiver êxito em seres humanos, uma droga à base da HNK poderia fazer com que os pacientes não esquecessem mais coisas básicas, como o nome de parentes", diz Ferreira, que ressalva que restituir a capacidade de memorizar não significa recuperar as lembranças perdidas.
Lourenço observa que os testes de diagnóstico que estão no mercado estão longe da acurácia desejável e não foram estudados na população brasileira. Ferreira diz que existem testes experimentais que podem indicar com até 85% de acerto se uma pessoa desenvolverá a doença de cinco a dez anos, mas sequer estão aprovados para uso clínico em seus países de origem.
Em animais, a HNK teve êxito em impedir danos à formação de memória mesmo na presença das placas de beta-amiloide. "Restaurar as sinapses, a comunicação entre as células, pode ser melhor do que apenas bloquear as placas", afirma Lourenço. Ferreira acredita que não haverá só uma droga para tratar as pessoas com a doença de Alzheimer e, sim, coquetéis de remédios.