Aqui na Capital da Terra Branca, a campanha eleitoral deslisa numa superfície plana coberta por água e sabão. Todos os candidatos estão bem comportados, cada um na sua, oferecendo soluções fáceis para problemas difíceis.
Nem diga que estou lamentando a ausência de outsiders nesta corrida pela Prefeitura Bauru. Seriam aqueles candidatos que nada têm a perder e por isso adotam estratégias ousadas para captar a atenção e, em consequência, o voto dos eleitores. Trump, Bolsonaro e Javier Milei foram eleitos com discursos agressivos, apresentando ideias que excluem os interesses mais prementes da população, com doses de afronta às instituições e às regras republicanas.
Seria pedir demais uma disputa mais acirrada aqui na província, antes que os eleitores bauruenses morram de tédio. Em Bauru, as pessoas ainda se encontram no supermercado e nos velórios. Há que se preservar um espaço nas desavenças políticas para se evitar rompimentos definitivos.
Imagine se tivéssemos, em termos locais, um Pablo Marçal, estreante que começou chutando o balde e nem fica envergonhado por não saber para que lado fica Sapopemba. Fernando Henrique Cardoso também não soube responder, quando Jânio perguntou sobre a localização geográfica daquele bairro, na campanha de 1998 pela Prefeitura da Capital. FHC teve uma resposta inteligente: "Sou candidato a Prefeito e não a chofer de táxi".
Nada obsta que a gente ria um pouco, pelo menos, durante uma disputa eleitoral. Humor e política sempre andaram juntos. Nada mais corrosivo do que o humor, não só em política como também para livrar a sociedade dos maus vícios.
Como o humor atinge na veia e às vezes mata pela exposição ao ridículo, a relação entre políticos e humoristas nunca foi cordial. São inúmeros os casos de humoristas que sofreram pressões, censuras e não raro, acabaram indo para a cadeia. A turma do Pasquim, por exemplo, foi inteira para os porões da ditadura. Aliás, os humoristas crescem em importância e audiência em épocas de exceção. O grande sucesso da dupla Alvarenga & Ranchinho foi ajudado por Getúlio Vargas, durante a ditadura chamada de Estado Novo. Toda vez que os caipiras terminavam o programa ao vivo, na Rádio Record, a polícia do Departamento de Imprensa e Propaganda os aguardava na porta. Na verdade o DIP era um órgão de censura. Os artistas se despediam dos ouvintes dizendo da necessidade de concluir a audição para não deixar a "corintiana" esperando por muito tempo. O camburão da polícia era preto e branco, a exemplo do timão. Os ouvintes riam do ditador e com isso pressionavam pela redemocratização que acabou acontecendo no pós-guerra.
Quem também sofreu muito com a ditadura getulista foi Aparício Torelly, o Barão de Itararé. Seu jornal "A Manha", foi fechado várias vezes. Numa dessas vezes, só porque criticou o imobilismo do governo terminando seu artigo com a frase: "De onde menos se espera, aí é que não sai nada mesmo". Certa vez, a polícia política mandou uns trogloditas à redação. O jornalista mandou pregar um cartaz na porta da sua sala com a advertência: "Entre sem Bater". Ainda com a cabeça inchada, saiu-se com mais esta: "Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa". Mesmo apanhando, o Barão não dava tréguas. Sabia que era uma voz a pregar no deserto. Daí a frase: "Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados".
Modernamente, tivemos Millôr Fernandes, o maior frasista do país que advertia os políticos populistas. "Se durar muito tempo a popularidade acaba tornando a pessoa impopular." José Simão, está bem vivo, incomodando os acomodados no jornal e no rádio e lamentando que "No Brasil, nem a esquerda é direita". Temos Fernando Veríssimo, lutando para se recuperar de um AVC, mas ainda lúcido para produzir frases para a eternidade: "Quando a gente acha que tem todas as respostas vem a vida e muda todas as perguntas".