OPINIÃO

O psicopata mora ao lado

Por Zarcillo Barbosa |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é jornalista e articulista do JC

Há dez anos o bestseller da médica-psiquiatra Ana Beatriz Barbosa da Silva - Mentes perigosas. O psicopata mora ao lado - alertava para o fato de 4% da população mundial sofrer transtornos de personalidade. Mesmo em ambientes em que deveríamos nos sentir seguros, existem disfarçados em pessoas de bem, seres calculistas, manipuladores e insensíveis aos sentimentos alheios.

Estão ao nosso lado no trabalho, na escola, na vizinhança e no círculo familiar e a qualquer momento podem gerar destruição em nossas vidas.

Os estudos da pesquisadora carioca sobre a ação de psicopatas na literatura forense, podem servir à reflexão sobre o desaparecimento da funcionária da Apae, de Bauru, crime ainda em investigação, mas com pormenores levantados e que são suficientes para horrorizar a população.

A Apae é uma organização não governamental modelo, sem caráter lucrativo, assiste a mais de 4 mil crianças, adolescentes e até adultos com deficiência intelectual, física, visual, transtornos do espectro autista, com necessidades especiais ou algum tipo de vulnerabilidade social. Existe em Bauru desde 1965 e, como jornalista, conheço-a desde o tempo do sr. Alberto Segalla, depois d. Olga Bicudo, pessoas beneméritas, acima de qualquer suspeita e seguidas por um séquito de anjos.

De repente, justamente num lugar só do bem, um jovem presidente é acusado de bárbaro crime e, a vítima, sua secretária e braço direito. Um funcionário confessa ter ajudado a dar fim ao corpo, numa fogueira de objetos descartáveis da própria instituição.

Antes de satisfazer o desejo de vingança da população, até que tudo se esclareça e haja uma sentença os implicados devem ser tratados como "suspeitos". Nossas fantasias persecutórias de tomar certas pessoas como monstruosas precisam ser refreadas em nome de preceitos civilizatórios.

Direito não é vingança. A Constituição brasileira assegura tratamento de acordo com os princípios da dignidade humana a todos os criminosos. Há também causas excludentes de culpabilidade em razão de doença mental à época da conduta. Quando as provas são contundentes, a defesa sempre invoca a falta de capacidade do réu de compreender a natureza do delito.

Durante muito tempo Chico Picadinho esteve nas manchetes dos jornais, em 1966, por ter matado e esquartejado o corpo de uma bailarina austríaca. Condenado a 14 anos, passou oito na prisão e voltou a frequentar a "boca do lixo", onde matou uma prostituta e retaliou o corpo até que as partes coubessem em malas e sacos plásticos.

Há o caso da atriz Daniela Perez, morta numa emboscada por Guilherme de Pádua, ambos da Globo. O ator colocou acima de qualquer valor suas ambições pessoais. Suzana von Richthofen, de 19 anos, com a ajuda do namorado matou os pais a golpes de barra de ferro, enquanto dormiam.

A professora Ana Beatriz elenca as características dos psicopatas. Eles sabem utilizar as regras sociais em seu favor. Se divertem com o nosso sofrimento e são hábeis em culpar os outros pelos seus atos, eximindo-se de qualquer responsabilidade. Predadores sociais, estão misturados à multidão. Trabalham, estudam, casam-se e têm filhos. Vivem como pessoas comuns, mas não possuem empatia. "Já nascem assim, não se tornam ruins ao longo da vida" - acusa a autora.

Podem parecer amigáveis e bem ajustados quando querem atingir um objetivo. O transtorno é difícil de ser identificado. Odeiam quando alguém descobre sua mentira ou comportamento. Não se envolvem amorosamente. Simulam envolvimento.

Os psicopatas apresentam uma capacidade reduzida de processar emoções e reconhecer as emoções dos outros. Não choram. Põem-se no papel de vítima, de injustiçados.

São pessoas charmosas, impulsivas, mostram eficiência. Aconselha a autora a não tentar mudar essas pessoas, consertá-las. "Elas são tóxicas" e não mudarão porque você o ama e deseja ajudá-lo.

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