OPINIÃO

Céu de brigadeiro ou nublado?

Por Reinaldo Cafeo |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil

Que o Ibovespa teve recorde de pontuação (nominal, não em dólares) é verdade. Que a prévia do PIB de junho, o IBC-Br, veio acima do esperado, cravando 1,37%, também é verdade. Também são verdades a queda na taxa de desocupação e a geração formal de empregos, portanto, bons indicadores econômicos, que podem nos remeter a avaliar que o país convive com o chamado "céu de brigadeiro", ou seja, céu limpo e bom para navegar. Contudo, vale o questionamento: céu de brigadeiro ou nublado?

Vamos explorar o cenário econômico. O aumento dos gastos públicos tem auxiliado no bom desempenho da economia. Salário mínimo reajustado acima da inflação, a ampliação do Bolsa Família e a introdução de outras políticas de transferência de renda, a reposição do quadro de servidores públicos e uma série de intervenções do Estado na economia são algumas das justificativas para este bom momento da economia.

Neste cenário vem aquela imagem de quem corre uma maratona. Se o corredor acelerar demais no início, vai faltar fôlego na reta final, por outro lado, se for muito lento, se distanciará do pelotão da frente e dificilmente vai vencer a corrida. A economia é uma maratona que precisa se manter em equilíbrio para sustentar a corrida ao longo do percurso e, infelizmente, não é isso que se observa.

A equipe econômica do governo Lula tem elevado a arrecadação pública, principalmente pelo aumento na carga tributária, mas gastou demais no primeiro semestre deste ano. Será necessário um esforço hercúleo para, quem sabe, fechar o ano com déficit primário na ordem de 0,7% do PIB, diante de uma meta entre zero e um déficit máximo de 0,25% do PIB.

Se as contas públicas não forem equilibradas este ano, considerando que em 2025 o atual governo entrará em seus dois últimos anos de mandato, é previsível que a gastança será ainda maior e, sem novas fontes arrecadatórias, afinal, tudo tem um limite, o descrédito será inevitável.

É aquela sensação de que as coisas estão bem, mas cada um de nós está desconfiado se isso tudo não é artificial, se efetivamente se sustenta no longo prazo.

Este quadro tende ainda a sofrer impactos importantes do comportamento internacional, principalmente dos Estados Unidos e China. Pela frente americana a política monetária por lá, impactará no câmbio por aqui, podendo ou não pressionar a inflação, mexendo na taxa de juros. Pelo lado da China o impacto será também no câmbio e no volume de exportação.

Isso tudo tendo que conviver com uma certa pressão nos preços, portanto, na inflação, exigindo política monetária mais restritiva.

Precisa de muita habilidade para manter a economia em equilíbrio, criando condições para que a economia cresça, gere emprego, mantenha inflação controlada e ainda elimine as desigualdades sociais.

Respondendo a provocação: o céu não é de brigadeiro, está nublado sem formação de chuvas, mas o caminho para evitar a tempestade já é conhecido: fazer a lição de casa, mantendo a todo custo o tripé macroeconômico: não perder de foco no cumprimento da meta de inflação de 3% ao ano, permitir que o câmbio flutue e acima de tudo ter rigor fiscal.

Se governo Federal fizer sua parte, o Banco Central pode afrouxar a política monetária, e os indicadores que são bons no curto prazo, podem ser melhores ainda nos médio e longo prazos.

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