Bauru está longe de ser uma cidade modelo. Concordo. Mas, é coisa nossa. Bauruense não admite que alguém de fora fale mal da "Cidade Sem Limites", como a cantou o poeta Eusébio Guerra nos anos 1950.
Aí está o Rio Bauru, com aquele caudal de águas escuras e malcheirosas. Nele não se realizam etapas olímpicas de triatlo e maratonas aquáticas, como no Sena. Mas é o rio da minha aldeia, comparou Fernando Pessoa com o Tejo.
Um dia, talvez, quem sabe, a prefeita ou prefeito haverá de terminar a Estação de Tratamento de Esgoto e devolver o rio aos peixes. Antevejo gramados nas duas margens e bancos à sombra dos salgueiros. Na última enchente, um jacaré perdido e um cágado desavisado foram vistos transitando entre a terra e a água poluída. Sinal de que existe vida além das capivaras.
Diferente do rio da aldeia do poeta português que não o fazia pensar em nada, os bauruenses que conseguiram resistir ao tempo ainda guardam recordações do tempo de menino. Contam aos incrédulos a aventura que era pescar guarus com peneira nas suas margens. Ouviram dos seus pais e avós que a Lagoa do Ministro, formada na conhecida Baixada do Silvino, foi ponto de recreação dos antigos moradores.
Postam fotos de caramanchões com música ao vivo e de barcos de passeio. Um dia aconteceu uma tempestade, e o Ribeirão das Flores, que os teimosos dirigentes tentam conter sob o asfalto da Avenida Nações Unidas, levou tudo de roldão ao encontrar o Rio Bauru, também enfurecido. Acabaram-se as tardes fagueiras.
Quem sabe um dia, tudo isso volte. A cidade é uma obra coletiva que pertence às pessoas, não ao poder público e prefeituras. As cidades têm que ser pensadas a partir do ponto de vista das relações sociais que nelas precisam se desenvolver. É isto que cria o espírito comunitário, o "bairrismo criador e empreendedor".
Estou repetindo o pensamento de Jane Jacobs que, nos anos 1960 escreveu um livro importante - "Vida e Morte das Cidades". Sua obra influenciou o planejamento urbano das cidades civilizadas. O pós-moderno urbano é quase uma volta ao passado, uma antítese às cidades "perfeitas" de Le Corbousier, mestre dos criadores de Brasília, uma cidade sem calçadas.
Esse urbanismo ortodoxo é marcado pela preocupação básica de mudar o homem, transformar a natureza humana. Criamos condomínios, enclaves fechados e protegidos de si mesmos, com severas restrições à entrada de desconhecidos e com uma população homogeneizada e seleta. Não passam de bairros-dormitórios sem vida, sem padaria na esquina, sem um barzinho. Todos se recolhem às vivendas com piscinas e home theaters. Cada um fica na sua. Os vizinhos nem se conhecem.
A estratégia de exclusão e privatização dos espaços é que mata a vida urbana. As grandes avenidas só servem para circulação de carros. As compras ficam restritas à pseuda segurança dos shoppings. A ultima tentativa é a de transferir favelas para condomínios verticais em prédios mal construídos e nada duráveis.
Nos Estados Unidos as cidades médias caminham em sentido contrário ao dos espaços fortificados e militarizados. A ideia da cidade-pulsante compreende gente nas ruas, vida noturna, pessoas circulando.
A primeira intervenção foi recuperar o "centro velho", a fim de permitir a integração e interação dos cidadãos. Ampliam-se os calçadões. As moças fazem footing, como na Rua Batista de antigamente.
A literatura está cheia de elogios aos passeios que ocupam lugar de honra na consolidação da urbe. Baudelaire denominou essa comunhão universal das calçadas num lugar sagrado porque somente lá, quem está no poder pode tomar "um banho de multidão". E fazer coisas certas inspirados pelo povo. Stephen Dedalus, personagem de Joyce, sugere de forma enigmática que Deus está lá fora no "grito das ruas".
São reflexões que devemos esperar dos nossos governantes. Bauru, com 128 anos é apenas uma criança.
Mas já está na hora de pensar no futuro.
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