ENTREVISTA JC

Entrevista da Semana com a delegada Marina Aiello Sartor

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Tisa Moraes
Marina Aiello Sartor
Marina Aiello Sartor

Ela é titular da Delegacia da Receita Federal de Bauru e dona de perfil nas redes sociais sobre artesanato com mais de 400 mil seguidores

Inquieta e movida a desafios, Marina Aiello Sartor sempre teve facilidade para aprender e, muito cedo, cultivou apreço pelo trabalho. São atributos que pavimentaram o caminho para a aprovação em concurso público, aos 21 anos, como auditora fiscal da Receita Federal. Hoje, aos 50, ela ocupa a cadeira de delegada, sendo a primeira mulher a comandar a Delegacia da Receita Federal de Bauru.

Nascida em Botucatu, Marina tem forte ligação com Rondônia, onde o pai trabalhou e ainda vive. Formada em administração de empresas, construiu sólida carreira na Receita, com passagens por Cuiabá e Campinas, até chegar a Bauru, em 2002, já com os filhos Mateus e Lucas.

Pouco mais duas décadas depois, em abril de 2023, foi alçada ao cargo de delegada, com a função de liderar o trabalho de cerca de 150 servidores em Bauru e em unidades em Avaré, Botucatu, Jaú, Marília e Ourinhos. Além disso, também conduz, neste momento, a implantação de ações de sustentabilidade e mudanças na estrutura da delegacia.

Paralelamente, Marina - uma entusiasta do artesanato desde os 5 anos - mantém o "Loucas por Caixas" no YouTube, Instagram e Facebook, perfis que somam mais de 400 mil seguidores, onde compartilha dicas e tutoriais de pintura e decoração em caixas de MDF. Além de terapêutico, o exercício da arte, ela conta nesta entrevista, é uma forma de conectar-se com pessoas de todo o mundo e impactar vidas. Leia os principais trechos.

JC - Você nasceu em Bauru? Fale um pouco sobre sua origem.

Marina - Em Botucatu. Meu pai é engenheiro agrônomo, tinha uma empresa de topografia em Rondônia e ajudou a fundar o Estado. Até hoje ele está lá, onde a gente tem fazendas. Vou para lá desde criança e morei em Vilhena (RO) por três anos. Foi uma experiência enriquecedora, mas na escola eram muitos dias sem aula, e, quando voltei a Botucatu para fazer o colegial, tive que correr atrás. Já minha mãe foi professora de bioquímica na Faculdade de Medicina da Unesp e, depois que voltamos de Rondônia, ela teve loja de móveis. Fui trabalhar com ela ao mesmo tempo em que estudava.

JC - Deu conta de recuperar os estudos?

Marina - Tenho facilidade para aprender. Sempre fui agitada, gostava de ajudar os colegas na escola, o meu pai na fazenda ou no escritório, a minha mãe, na loja. E hoje, na Receita, sigo aprendendo, porque ela abarca muitos temas e o delegado, como gestor, precisa dominá-los. Minha formação, aliás, foi em administração de empresas. Cheguei a montar uma loja de móveis, mas quando terminei a graduação, vi uma propaganda de curso para concurso em Bauru e fui na aula inaugural. Fiquei encantada e comecei a fazer o cursinho. Por quatro meses, todo dia, ia e voltava em ônibus de estudante. Era a mais nova do cursinho e fui a única a passar, aos 21 anos. Aí, fiquei quatro meses em Brasília fazendo curso de formação, que foi minha faculdade.

JC - E foi trabalhar onde?

Marina - Tinha prestado concurso para a área aduaneira, porque relações internacionais era algo novo, mas fui para Cuiabá (MT) trabalhar com tributação, julgando processos aos 23 anos. Seis meses depois, fui para Campinas e lá fiquei por cinco anos, quando tive meus filhos. Como já estava exercendo funções de chefia, consegui transferência para Bauru, como chefe de tributação, em 2002. Depois, fui chefe de fiscalização, chefe do gabinete e delegada adjunta. É muito rica a experiência. Agora, a Receita passa por um processo de especialização e regionalização e a delegacia de Bauru, que já cuida de mandado de segurança e fiscalização de PIS/Cofins, deverá ser a unidade de repressão aduaneira do Interior do Estado. Gosto desta inovação permanente, sou movida a desafios e acho que nosso trabalho precisa ter um propósito.

JC - A Receita implantou recentemente um programa de sustentabilidade, inclusive.

Marina - Sim, por meio de parcerias com instituições, universidades, visando reduzir a emissão de poluentes no processo de destruição das mercadorias apreendidas. Um exemplo é a transformação de tabaco em adubo, outro é a destinação de materiais úteis aos alunos do CTI e da Etec. É uma iniciativa que patrocina projetos de extensão e iniciação científica e contribui para a preservação do meio ambiente e que, agora, está sendo levada ao Estado todo. Temos parcerias, ainda, com a Polícia Militar no projeto Muralha (para integração de sistemas de videomonitoramento), com a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal.

JC - Você parece realizada na Receita. Como mulher, teve dificuldade para exercer sua autoridade?

Marina - Quando cheguei em Bauru, era muito nova e sofri um pouco, porque era um ambiente predominantemente masculino, com alguns auditores mais antigos. Mas fui aprendendo a lidar. Hoje, temos muitas mulheres em cargos de chefia. E, sim, tenho orgulho de trabalhar na Receita, que está na vanguarda mundial. Nosso programa de Imposto de Renda é um dos melhores do mundo, nossa inteligência na área aduaneira é uma das cinco melhores. O Brasil tem protagonismo nesta área, por conta do corpo funcional, que é muito bom. Além da integridade dos servidores, que são acompanhados por uma Corregedoria muito forte, há esta oportunidade de estar sempre inovando.

JC - O que gosta de fazer nas horas vagas?

Marina - Minha mãe tem veia artística e, desde meus 5 anos, faço artesanato. Gosto de pintar e decorar caixas em MDF e, todas as noites, faço alguma coisa. É terapêutico. Comecei divulgando dicas no meu canal no Fotolog, o "Louca por Caixas", que era um dos dez mais acessados do Portal Terra. Depois, com a participação da minha mãe, mudamos para "Loucas por Caixas", que teve uma comunidade nacional no Orkut. Em 2011, criei o canal no YouTube, onde dava dicas, mas não mostrava o rosto. Fui quebrando barreiras e hoje faço lives, dou aulas online, exponho em feiras e tenho contato com seguidoras até do Exterior. Descobri que, com a arte, posso transformar vidas.

O que diz a delegada:

'Gosto de inovação, sou movida a desafios e acho que nosso trabalho precisa ter um propósito'
'Tenho orgulho de trabalhar na Receita, que está na vanguarda mundial por conta do corpo funcional'
"No Loucas por Caixas, tenho contato com seguidoras até do Exterior. Descobri que, com a arte, posso transformar vidas'

Por meio do artesanato, Marina conquistou mais de 400 mil seguidores (crédito: Arquivo pessoal)
Por meio do artesanato, Marina conquistou mais de 400 mil seguidores (crédito: Arquivo pessoal)
Marina com o pai, Maercio Sartor, e os filhos Lucas e Mateus (crédito: Arquivo pessoal)
Marina com o pai, Maercio Sartor, e os filhos Lucas e Mateus (crédito: Arquivo pessoal)
Com a mãe, Maria Eneida (crédito: Arquivo pessoal)
Com a mãe, Maria Eneida (crédito: Arquivo pessoal)
Com o marido, Marcelo Ribeiro (crédito: Arquivo pessoal)
Com o marido, Marcelo Ribeiro (crédito: Arquivo pessoal)

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