Os moradores de Bauru, normalmente, começam a tirar os casacos dos armários em meados de maio, mas, em 2024, além de terem visto as temperaturas começarem a cair tardiamente, experimentaram poucas e curtas ondas de frio. A condição atípica fez com que cinco dos seis primeiros meses do ano fossem os mais quentes de toda a série histórica de medições da estação automática do Centro de Meteorologia de Bauru (IPMet), iniciada em 2001.
A única exceção foi janeiro, que registrou temperatura média de 26,1 graus, a mais alta dos últimos cinco anos. Já nos meses seguintes, sucessivos recordes foram batidos, com 26,6 graus em fevereiro, 26,2 graus em março, 25,4 graus em abril, 23,6 graus em maio e, em pleno inverno, 22,9 graus em junho - 1,5 grau acima da maior média registrada para este mês até então.
Já em relação às chuvas deste ano, segundo o centro, o acumulado foi 36% superior à média climatológica em março e 14% acima em abril. Em contrapartida, as precipitações de janeiro foram 30% inferiores à média esperada para o mês e fevereiro, 34,5% abaixo. Com a chegada do período mais seco do ano, o cenário tornou-se mais crítico, com maio contabilizando volume de chuvas 74,8% menor que a média climatológica do mês e junho, 98,2% menos.
Aquecimento
São dados relevantes em meio à ampliação dos debates sobre aquecimento global, em que pesquisadores apontam para o risco de eventos meteorológicos, como chuvas, estiagens e calor, se tornarem cada vez mais frequentes e extremos caso políticas climáticas mais rigorosas não forem adotadas.
Para se ter ideia, na última segunda-feira (22), a temperatura média do ar no mundo, monitorada desde 1940 pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, bateu recorde e chegou a 17,15 graus, ultrapassando o pico registrado um dia antes. Também nesta semana, a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) divulgou estudo com projeção de aumento de até 6 graus na temperatura na região central do território paulista até 2050.
Realizado por pesquisadores do Instituto Geológico, órgão extinto pelo governo estadual em 2020, e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), o levantamento também aponta que algumas cidades, especialmente na região norte, poderão enfrentar ondas de calor com mais de 150 dias de duração (leia abaixo).
Bauru poderá ficar até 6 graus mais quente até 2050
Os pesquisadores do Instituto Geológico e da Cetesb concluíram que a faixa central do Estado de São Paulo, onde Bauru está localizada, pode ficar até 6 graus mais quente até 2050. As projeções para o período entre 2020 e 2050 foram feitas a partir da análise de dados climáticos de 1961 a 1990, com utilização de quatro modelos climáticos e nove variáveis de temperatura e chuva.
E consideram alguns cenários, sendo que o mais pessimista pressupõe aumento dos níveis de concentração de gás carbônico na atmosfera, não adoção de políticas públicas para redução das emissões de gases, expansão de áreas agrícolas e de pastagens, e continuidade da dependência de combustíveis fósseis, como o petróleo.
A conclusão é de que haverá aquecimento da atmosfera, com tendência a ser menos intenso na fachada litorânea e maior no trecho Noroeste do Estado. As temperaturas máximas anuais poderão aumentar entre 0,5 e 1,5 graus no Litoral norte e Baixada Santista e de 3 graus a 4 graus, podendo chegar aos 6 graus, na região central.
Já as ondas de frio poderão ter redução de 1 a 3 dias e as ondas de calor, passarem de 150 dias no Norte paulista, região de Ribeirão Preto, no cenário mais pessimista, e de 25 dias no Sul do Estado.
"Este estudo é importantíssimo para lembrar que a emergência climática é real e pode trazer consequências devastadoras para o planeta e também para o Estado mais rico do Brasil, que pode ter sua economia fortemente atingida se as projeções se confirmarem", comenta Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC.
Chuvas
O estudo também observou chances de aumento de eventos extremos, alternando entre clima seco e chuva forte, podendo causar deslizamentos de encostas, inundações e erosões. Este cenário aparece, principalmente, no Litoral Sul e Norte.
Um dos modelos aponta risco de redução de chuvas, com destaque para as regiões de Ribeirão Preto e São José do Rio Preto. "Entre as diferentes tendências, a redução na precipitação é o pior cenário a ser enfrentado", pontua o estudo, destacando os "reflexos negativos no setor produtivo, na saúde e bem-estar social".
A pesquisa, que foi encomendada pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) e levou cerca de quatro anos para ser concluída, foi incorporada ao Zoneamento Ecológico-econômico do Estado de São Paulo (ZEE-SP). A APqC cobra, agora, que o governo estadual adote um plano de ação para conter o avanço do aquecimento em São Paulo, além de recriar os institutos Geológico, Florestal e de Botânica, bem como a Sucen.
Em nota, a Semil afirma ter compromisso com a sustentabilidade ambiental e resiliência climática e possuir um aparato de programas voltados ao equilíbrio ambientalista do Estado. Desde 2022, a pasta possui o Plano de Ação Climática (PAC) 2050 e o ZEE-SP, que mapeiam cenários climáticos globais para aplicação e gestão de riscos ao Estado. A íntegra do comunicado pode ser conferida na Coluna do Leitor desta edição (para ver clique aqui).