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Após 18 anos, influente estudo sobre o Alzheimer é despublicado


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A pesquisa foi publicada em 2006
A pesquisa foi publicada em 2006

A Nature "despublicou" - o que no universo científico significa que retratou - nesta segunda-feira (24) uma influente pesquisa sobre Alzheimer, inicialmente publicada em 2006. Segundo a revista científica, imagens do estudo apresentavam manipulação excessiva, como corte, duplicação e uso de ferramenta para apagar partes de figuras.

Ser retratado, em linhas gerais, significa que os resultados do trabalho devem ser desconsiderados.

O artigo, dessa forma, torna-se o segundo com mais citações (pouco mais de 2.300) a ser retratado -considerando a contagem até o momento da despublicação -, segundo o site Retraction Watch, que acompanha os movimentos de retratação em revistas. Essa lista está atualizada até 19 de junho, o que faz com que a pesquisa "despublicada" pela Nature ainda não esteja presente.

"Os dados não podem ser verificados nos registros. Consideramos que o curso de ação apropriado é retratar o artigo", diz a Nature, em nota.

As críticas existentes sobre o estudo, o silêncio de seu primeiro autor, Sylvain Lesné, em relação às acusações, e o movimento de sua autora correspondente, Karen Ashe, que inicialmente defendia que a pesquisa não deveria ser "despublicada", mas que, recentemente, havia afirmado que o paper deveria ter como fim a retratação, colaboraram para a despublicação. Ashe, porém, publicou estudo semelhante, com outros coautores, em outra revista, após refazer os experimentos que levaram aos resultados inicialmente mostrados na Nature.

A Nature afirma, em nota, que Lesné foi o único autor a não concordar com a retratação. Segundo a revista, Austin Yang, outro dos autores, não respondeu às tentativas de contato da Nature.

Ashe, que é professora do Departamento de Neurologia da Universidade de Minnesota (Estados Unidos), havia tornado pública, recentemente, a decisão sobre o pedido de retratação no PubPeer, uma espécie de fórum online para discussões de artigos científicos revisados por pares.

A docente afirmou ter tomado conhecimento das acusações contra o estudo em 2022. Também desde 2022 havia uma nota na página do estudo alertando que havia preocupações com relação a algumas imagens presentes na pesquisa.

O estudo retratado apontava que a A?*56 (leia beta-amilóide estrela 56) exercia um papel relevante na deterioração da memória no Alzheimer, mesmo sem a formação de placas beta-amilóides ou perdas neuronais. Essa proteína também poderia contribuir, segundo o estudo desenvolvido em camundongos, para os déficits cognitivos do Alzheimer.

Isso, consequentemente, colocaria a A?*56 como um potencial alvo terapêutico contra o Alzheimer.

Qual é o impacto para os pacientes?

Os especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que, apesar de o estudo em questão ter um elevado número de citações, a despublicação não impacta pacientes ou tratamentos.

Primeiro, o que se sabe sobre as formas de prevenção de demências - o Alzheimer é uma das principais - e parte das causas permanece igual. Ou seja, continuamos com as informações sobre as variantes genéticas ligadas à doença e os fatores que parecem ser associados a ela, como condição socioeconômica ruim, menos educação formal, deficiência de vitamina D, diabetes, doenças do coração, depressão e isolamento.

Além disso, mesmo que o estudo em questão acabe retratado, as placas amilóides continuarão sendo tidas como um componente relevante no Alzheimer, afirmam os especialistas ouvidos pela reportagem.

"Todos nós temos proteínas amilóides, que podem ir se acumulando, juntando-se e acabar formando as placas", disse Haddad.

"Sabemos que a placa amilóide tem uma relação direta com a doença. Tem pessoas que têm a placa e não tem a doença. Mas todas as pessoas que têm Alzheimer têm placas amilóide", afirmou o especialista.

Segundo Haddad, a placa tem relação com a doença, mas ela sozinha não é a doença. Existem ainda outras questões associadas, como a também já bem conhecida proteína tau e processos inflamatórios. "A parte amilóide é um dos conceitos. Possivelmente a doença seja muito maior que isso."

Em questão de tratamento, a retratação não deve provocar efeitos também. Segundo os especialistas, as medicações recentemente aprovadas no exterior para uso contra Alzheimer -uma delas, inclusive, neste mês- e mostram algum potencial benefício não são focados na A?*56.

Dessa forma, o impacto de uma retratação do estudo fica mais restrito à área científica, o que ainda não significa um impacto pequeno, especialmente pensando que se trataria da "despublicação" de um grande estudo publicado na Nature, uma das revistas científicas mais respeitadas no mundo.

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