ENTREVISTA DA SEMANA

Maria José Monteiro Benjamin: 50 anos de dedicação ao Centrinho


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Arquivo pessoal
Maria José é carinhosamente chamada de Zezé
Maria José é carinhosamente chamada de Zezé

A educadora Maria José Monteiro Benjamin Buffa, 70 anos, mais conhecida como Zezé, completou, em 12 de junho, 50 anos de trabalho no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP em Bauru, dedicados à reabilitação e à qualidade de vida de pacientes com malformações craniofaciais, síndromes associadas e deficiência auditiva. Como ingressou na unidade na data em que se comemora o Dia dos Namorados, Zezé costuma brincar que o Centrinho é o seu "segundo namorado" - o primeiro é o marido, Antonio Buffa, com quem começou a namorar em 1971 e teve os filhos Augusto e Angélica.

Nascida em Bauru, Zezé é graduada em educação artística e pedagogia, especialista em psicopedagogia, neuropsicopedagogia e administração hospitalar e mestre e doutora em ciências da reabilitação. Em 1974, ela foi incumbida de implantar o serviço de Recreação do Centrinho e, em 1990, foi uma das responsáveis pela implantação do Centro Especializado no Desenvolvimento Auditivo (Cedau), do qual esteve à frente por 25 anos.

A educadora comandou, ainda, o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (NIRH) e, desde 2016, atua junto à Seção de Psicologia. Nesta entrevista, ela recorda momentos destas cinco décadas, fala do amor a seu ofício, da motivação em manter-se em atividade e da gratidão ao seu eterno "chefe" José Alberto de Souza Freitas, o Tio Gastão, um dos sete fundadores e superintendente do Centrinho por 45 anos. Leia os principais trechos.

JC - Como chegou à educação de pessoas com deficiência?

Zezé - Minha mãe era professora e meu pai trabalhou a vida toda no Senai. Mas fui influenciada por duas professoras de pré-escola do Ernesto Monte, na época em que fiz magistério lá. Quando não estava estudando, adorava ficar com elas, inclusive na sala de alunos surdos, que não tinha professor substituto. Então, quando uma professora faltava, eu ficava em sala com eles. Quando terminei o magistério, uma das professoras me chamou para trabalhar na escola Patinho Feio, que, hoje, é o Cisne Real. Depois, alguns amigos que trabalhavam no Centrinho começaram a dizer que o hospital precisava de alguém como eu.

JC - Para desenvolver que tipo de trabalho?

Zezé - Na época, o Centrinho existia há apenas sete anos. Os pacientes não eram acompanhados de familiares e permaneciam por um período longo antes e depois de uma cirurgia, ficando ociosos entre um atendimento e outro. Fui conversar com o doutor Gastão, que considero meu chefe até hoje, e comecei a trabalhar de manhã e à noite lá, permanecendo à tarde no Patinho Feio. Eu ensinava a comer, a tomar banho, dava atividades, brincava. Acabei parando de dar aulas e fiquei só no Centrinho, quando resolvi fazer faculdade para poder dar meu melhor. Ainda em 1974, implantei o serviço de Educação e Recreação, que foi sendo ampliado. Hoje, temos uma brinquedoteca linda, espaço para atividades com as mães, um palco para atividades lúdicas. Também ajudei a criar o grupo "Mãe Participante", na década de 80, quando as famílias começaram a estar mais presentes, em uma época que nem se falava em humanização do atendimento.

JC - Por que decidiu, em seguida, cursar pedagogia?

Zezé - Para iniciar o processo de alfabetização dos pacientes que estavam fora da escola. Em 1990, a (fonoaudióloga) Cecília Bevilacqua e o doutor Orozimbo (otorrinolaringologista) vieram para Bauru, se encantaram com o trabalho da Recreação e propuseram criar o Cedau, para crianças com implante coclear ou aparelho auditivo aprenderem a falar. Fazíamos um trabalho com pacientes, famílias e professores. Ajudei a montar o Cedau e fiquei na chefia do serviço, ao mesmo tempo em que coordenava a Recreação. Depois, ainda acumulei o NIRH, que dava atendimento com psicólogo, assistente social em Língua Brasileira de Sinais (Libras) a pacientes surdos e curso de Libras a professores e em unidades de saúde. Colocamos muitos surdos no mercado de trabalho. Mas, mais ou menos em 2014, o serviço foi extinto.

JC - Qual trabalho desenvolve hoje na Seção de Psicologia?

Zezé - Em 2016, saí da chefia da Recreação e do Cedau e fui para lá. Já tinha feito pedagogia, especializações, mestrado sobre inclusão de crianças com deficiência auditiva no ensino regular e doutorado sobre inclusão do fissurado no ensino regular. E fui estudar neuropsicopedagogia para atender pacientes e famílias que chegavam ao Setor de Psicologia, além de muitos cursos. Hoje, trabalho com crianças com malformação craniofacial sindrômicas e pacientes que estão na escola, mas não estão alfabetizados. Foi um grande desafio, mas consegui alfabetizar todos que atendi. Uma delas, adolescente, adquiriu tanto prazer pela leitura, que começou a escrever um livro criativo, sem erros de português, que, antes de me aposentar, quero publicar.

JC - O que a move a seguir em atividade?

Zezé - Sou apaixonada pelas crianças e elas por mim, porque não as olho com piedade, mas como seres humanos que são, capazes, mesmo em meio a dificuldades. Cobro bastante porque acredito que têm um potencial que precisa ser explorado e procuro, todos os dias, mostrar isso a elas e suas famílias. Entendo que fui escolhida por Deus para essa missão e me encanta ver a evolução desses pacientes, ver que, com meu comprometimento, posso fazer meu melhor por eles. Quando eu completar 75 anos, terei aposentadoria compulsória e não consigo me imaginar fora do Centrinho.

JC - Com tanta dedicação ao trabalho, sobra tempo para outras atividades?

Zezé - Gosto de gente, de festa, de viajar. Minha irmã Maria da Graça gosta das mesmas coisas e viajamos pelo menos uma vez ao mês. Já fui até para a Riviera de São Lourenço dirigindo. Agora em agosto, vamos para Vitória (ES). Também gosto de ir a encontros de grupos de amigos ou da família, que é enorme. Faço pilates, caminho aos finais de semana com minha irmã. Sou uma pessoa muito alegre, otimista. Tenho um pique que ninguém segura.

Zezé em foto recente com o paciente Daniel, nascido com a síndrome de Treacher Collins (Foto: Arquivo pessoal)
Zezé em foto recente com o paciente Daniel, nascido com a síndrome de Treacher Collins (Foto: Arquivo pessoal)
Zezé (ao centro) com o genro Guilherme, a filha Angélica,  o marido Antonio, o filho Augusto e a nora Juliana (Foto:  Arquivo Pessoal)
Zezé (ao centro) com o genro Guilherme, a filha Angélica, o marido Antonio, o filho Augusto e a nora Juliana (Foto: Arquivo Pessoal)
Zezé (segunda, à direita), em atividade na Recreação, na década de 1970 (Foto: Arquivo Pessoal)
Zezé (segunda, à direita), em atividade na Recreação, na década de 1970 (Foto: Arquivo Pessoal)
Com crianças do Cedau, que adoravam ficar com marquinha de batom da tia Zezé (Foto: Acervo USP/Divulgação)
Com crianças do Cedau, que adoravam ficar com marquinha de batom da tia Zezé (Foto: Acervo USP/Divulgação)

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