COLUNISTA

Dicas para ‘consumir’ Ciência

Por Alberto Consolaro | 08/06/2024 | Tempo de leitura: 4 min

Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC

Reprodução

Selecionar o que ler requer critérios e muita seletividade: temos um tsunami literário-científico por dia!
Selecionar o que ler requer critérios e muita seletividade: temos um tsunami literário-científico por dia!

O que temos hoje no jornal de domingo, é muito mais do que Machado de Assis leu na sua vida. Hoje temos um tsunami por dia de informações que invadem a nossa praia da vida, sem pedir licença. Antes de ler um trabalho em si, eu pulo sete ondas deste tsunami literário.

Tenho que ler 3 trabalhos publicados por dia, o que dá 1095 artigos por ano. Se lesse 1 por dia, seria 365 trabalhos por ano, um número impressionante. Mas, se me chegam dezenas e dezenas de trabalhos por dia, como faço a seleção destes artigos? Desde cedo aprendi a valorizar o meu cérebro e meu tempo e, desde cedo, adotei critérios individuais extraídos da biblioteconomia.

1- Primeiro vejo o título, que deve ser curto e dizer do que se trata. Os títulos longos, sugerem falta de objetividade e não tenho tempo para garimpar o objetivo no trabalho. Tenho mais de 50 trabalhos na fila, para selecionar só três e o dia tem 24h.

2- Segundo, vejo se o artigo, pesquisa ou livro tem o nome do autor. Se vier sem autor, eu nem abro e muito menos compro, mesmo se for publicado por uma grande editora, que as vezes disfarçam textos obtidos de forma anônima, com certas pessoas como curadoras, supervisores etc. Com a inteligência artificial, isto vai acontecer mais frequentemente.

3- Terceiro critério é o nome do autor que vale muito, onde trabalha, com quem compartilha suas obras, o que ele já escreveu antes, mas se isto não for me oferecido, caio fora para não perder tempo. Se o autor não for conhecido, o local onde trabalha e a revista e editora pode contar muito se continuo a ler ou não.

4- Quarto, se a revista ou editora não for criteriosa e caprichosa em suas obras, fica difícil acreditar que vai valer a pena ler o trabalho. A fila é enorme na lista de leitura, mas nem sei o local onde fica a editora ou quem é o seu corpo técnico. Às vezes a editora é famosa e, de tão grande, muito impessoal. Eu prefiro não me arriscar a perder tempo se desconfiar da editora. Tem obra que nem tem prefácio e posfácio.

5- Quinto, o local onde o autor trabalha, a universidade, o instituto e o contexto em que foi escrito é fundamental. Se não constar na primeira página do trabalho estas informações, já estou quase fechando. As vezes é um livro, e não tem essas informações nas páginas que antecedem a folha número 1, que são chamadas de prolegômenos. E nem tem estas informações nas orelhas do livro.

E se a universidade do trabalho não for muito boa nos rankings mundiais, assim mesmo se continua a ler o trabalho? Desde que eu tenha informações fáceis de serem resgatadas sobre ela e seu país sim, mas, frente a mínima dificuldade, prefiro pegar o próximo trabalho da fila.

6- Sexto, quem financiou o trabalho, em que laboratório foi feito, quem forneceu o material? Quem patrocinou o trabalho que avalia um produto ou uma técnica. Se foi o próprio fabricante que financiou ou foi feito em seus laboratórios, fica difícil continuar lendo. Tem outros trabalhos na fila, lembram? São 3 trabalhos que tenho que tirar de 50 ou mais por dia.

7- Sétimo, a língua do trabalho importa? Claro que sim, pois idiomas dificultam a compreensão, por isto geralmente se publica na língua nativa para os nativos e em inglês para os demais. Cada vez mais, os textos são automaticamente traduzidos para o português, o que facilita muito. Fica difícil ler trabalhos na maioria das línguas e entender o contexto.

Depois de passar por estes sete critérios ou ondas do tsunami literário-científico diário, aí sim vou curtir o trabalho lendo o sumário e resumo, curtindo a proposta e checando a metodologia, mas vou mesmo me deliciar na discussão sobre os dados que o autor generosamente nos oferece para que se chegue às conclusões. A leitura tem que fluir naturalmente.

O ceticismo faz parte da ciência, precisamos nos respeitar selecionando o que leremos, poupando os olhos do que veremos e economizando os ouvidos de sons que adentrem para o cérebro. 

REFLEXÃO FINAL

Estes critérios eu não aplico apenas nos trabalhos e livros, faço isto em tudo: redes sociais, mensagens e produtos do dia a dia. Se não fizesse isto, acho que, já teria perdido a saúde mental, com o cérebro invadido impiedosamente pela ansiedade que entra sem pedir licença em nossas vidas.

A quem perguntou quais meus critérios para o ‘consumo’ diário da ciência, eu diria que a palavra-chave é a seletividade como o produto da análise crítica e da propriedade de decidir por quais caminho quero ir, sem nunca perder a ternura!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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