COLUNISTA

O mundo é um moinho!

Por Alberto Consolaro | 04/05/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC

Vamos subindo, mas tem hora para parar!
Vamos subindo, mas tem hora para parar!

Escrevo para você, mas quem tu és? Vou lhe identificar: você ainda tem menos de 50. E lhe peço algo que parece impossível: pare! Responda: onde queres chegar? O quanto quer acumular e para quê? Já conseguiu o que queria e não consegue mais parar a roda da vida em que se meteu? Que pena.

Conheço muitas pessoas que sonhava em não trabalhar após os 50 anos e não conseguiu, mas bem que poderia! Mas, como não se decide, os seus sonhos se desmilinguíram na rotina diária que esfacela o romantismo, empatia e a vontade de viver e ver o tempo passar com saúde e harmonia. Cada vez mais viramos escravos, pois não conseguimos sair desta coisa que Darcy Ribeiro chamou de “máquina de moer gente”.

ERA ASSIM

O ser humano era para usufruir da natureza e, de vez em quando, iria aparecer um leão para lhe degustar. Você tranquilo se assusta com aquela fera, e num piscar de olhos a sua máquina humana acelera e ascende tudo que serve para correr, lutar, enxergar, decidir e raciocinar. É sangue e glicose para os músculos, cérebro e coração. O resto do organismo que se dane, agora temos que nos salvar na fuga ou enfrentamento.

Depois que conseguiu se safar da fera, por algumas horas ainda, você fica ofegante, pensativo e reflexivo, curtindo a façanha e tirando as lições para uma dia, quem sabe daqui alguns meses ou anos, se isto acontecer de novo. Cá entre nós, o que aconteceu com o corpo neste momento?

A fera, o leão e o perigo, acionaram as glândulas suprarrenais, dois verdadeiros chapéus dos rins, onde são produzidos os hormônios que estimulam nossas atividades vitais, especialmente nos casos de estresse agudo. Sãos os corticosteroides, entre os quais o cortisol, mas tem outros também que estimulam as funções vitais de fuga e ou luta.

LEÕES E BOLETOS

Ao priorizarem a sobrevivência, os hormônios deixaram de lado o sistema imunológico, inflamação, romantismo, diálogo, reflexão e inteligência emocional. O negócio era salvar a vida e não virar comida de leão. Hoje, o ser humano sabe disso e usa estes hormônios como drogas anti-inflamatórias e imunodepressoras. Estas funções eram momentaneamente apagadas em um curto período de tempo, em alguns minutos tudo estaria normal de novo e nem caracterizaria um período insignificante de fraqueza orgânica.

O tempo foi passando e o ritmo da vida acelerando. Agora, todo dia, temos alguns leões para fugir ou lutar. Assim são os boletos para pagar, as metas para cumprir, os presentes para dar e os desempenhos pessoais a cumprir. Todos os dias passamos por estresses extenuantes. O que era para ficar fraco para sobreviver por alguns minutos, uma vez por ano ou mais do que isso, passou a ser frequentes e diários.

Se o sistema imunológico fica atenuado pelo estresse e a inflamação menos competente todos os dias, teremos muito mais doenças infecciosas e muito mais cânceres que aparecem em várias partes do corpo. A medicina de mercado dá um jeito, e sobreviveremos por longo período com qualidade de vida menor e em condições precária para nem usufruir aquilo que construímos!

REFLEXÕES FINAIS

1. Não aguento mais notícias de amigos, parentes e conhecidos que estão com problemas de câncer. Eu apelo, parem de trabalhar tanto para acumular o vil metal, não vale a pena. Eu apelo mais ainda, às pessoas com menos de 50 anos, ainda dá tempo de readministrar o seu modo de vida.

2. São bilhões de mitoses por dia no corpo, algumas resultam em células atípicas e bizarras que o sistema imunológico e a inflamação conseguem acabar com elas em condições normais. Mas se você mata leões todo dia, este estresse diário acaba com suas defesas elementares. Tá na hora de parar para pensar em parar!

3. Cartola cantou assim para sua filha: “Ouça-me bem, amor. Preste atenção, o mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho. Vai reduzir as ilusões a pó.”

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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