Em 2020, dois anos antes de fazer as malas para Bauru para mergulhar na política local como repórter e posteriormente editor deste JC, iniciei uma série de reportagens no jornal para o qual trabalhava, o DEBATE, de Santa Cruz do Rio Pardo, conhecida como "cartel do lixo".
Eram basicamente dezenas de empresas que se alternavam nas licitações dos municípios, entre os quais Santa Cruz. Para piorar, os donos dessas empresas representavam umas às outras nos pregões. O dono de X respondia por Y em determinada cidade, e o dono de Y respondia por X em outra. Coisas do Brasil.
Foram meses de reportagens aprofundadas. O jornal era semanal, razão pela qual havia tempo de preparar excelentes investigações ao longo da semana para estampar a notícia na manchete da edição impressa, que saía aos domingos.
Não demorou para que os xingamentos começassem. Acusavam o jornal de não ter assunto, de perseguir o governo de plantão. Argumento oportunista, já que o grupo antecessor àquela administração dizia que nós favorecíamos o prefeito da época. Coisas de políticos.
Numa das reportagens dessa série sobre o cartel, descobri um contrato que a prefeitura de Santa Cruz havia firmado com empresa ligada ao grupo. A negociação estava mais do que superfaturada - o chamado "sobrepreço" na linguagem dos doutos conselheiros do Tribunal de Contas (TCE), que havia rejeitado o termo - e a própria Corte apontava para isso.
A decisão do TCE foi um verdadeiro banquete para este jovem repórter. A dita empresa foi contratada pela administração logo após a interdição do aterro sanitário. Fizemos o óbvio: procuramos os arquivos da época e, num áudio, o próprio prefeito admitia, sem meias palavras, que contrataria uma das empresas do grupo "porque eles têm várias empresas".
A história é implacável: dois anos depois, quando os indícios de cartel vieram à tona, a declaração do mandatário se revelou bombástica.
E foi a manchete, é claro. "Prefeito sabia de cartel do lixo e firmou contrato superfaturado com empresa". No dia seguinte o doutor foi até a rádio oficial - assim chamada porque sempre serviu aos interesses dos governos - vociferar contra mim e contra o jornal.
Ameaçou me processar, proferiu ofensas impublicáveis e tudo o mais. No final da tarde divulgamos o áudio que ninguém imaginava que tivéssemos. Nem mesmo ele, o entrevistado. No dia seguinte, questionado por outra rádio sobre o tal processo, recuou. Afirmou que estava "de cabeça quente".
E nós, enquanto isso, continuamos reportando os fatos. O prefeito deixou o governo e o jornal continuou. Só acabou em fevereiro deste ano porque meu pai, seu proprietário, morreu. Não fosse assim, continuaria cobrindo os acontecimentos locais sem recuar por pressão dos políticos plantonistas.
Este é o papel da imprensa séria: manter a chama acesa independentemente do governo de plantão. Seguiremos.
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