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Redes de julgamento

Por Bernardo Yoneshigue |
| Tempo de leitura: 4 min
A saúde mental de quem usa redes sociais pede socorro (foto ampliada no final)
A saúde mental de quem usa redes sociais pede socorro (foto ampliada no final)

Em fevereiro, o Facebook, rede social que revolucionou a forma como dos humanos interagem no mundo virtual, completa 20 anos. Neste período, a plataforma chegou a cerca de 3 bilhões de usuários ativos, mais de um terço da população mundial, e novas redes surgiram e se consolidaram. Mas, apesar de terem se tornado parte indiscutível da sociedade, todos os impactos das plataformas ainda estão longe de serem totalmente compreendidos.

Um dos fenômenos mais recentes que tem acendido o alerta de especialistas é conhecido como "tribunal da internet". Trata-se do excesso de julgamento nas redes que se dissemina de forma rápida, em grandes proporções e dita quem está certo e errado para "cancelar" os "culpados", numa espécie de boicote que nem sempre segue uma avaliação justa.

A intenção inicial, quando o termo "cancelamento" se tornou mais popular, em 2019, era responsabilizar pessoas por comportamentos por vezes até criminosos, como casos de assédio e preconceito. Mas, com o volume cada vez maior de informações, a circulação de fake news e a sensação de impunidade para quem se aproveita da distância da tela para agredir o outro sem filtros, o cenário mudou. Especialistas ouvidos pelo reportagem explicam como o clima constante de alerta que se criou hoje nas redes, afeta a saúde mental dos usuários.

"Esses julgamentos podem estar enviesados do ponto de vista dos valores das pessoas, do funcionamento de grupo e do que chamamos de efeito manada, quando pessoas começam a te criticar de forma conjunta sem nem conseguir avaliar ao certo o que elas estão julgando", diz Gustavo Estanislau, doutorando em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo e pesquisador do Instituto Ame Sua Mente, e continua: "Do ponto de vista de desdobramentos de saúde mental, é bastante comum que a pessoa comece a se sentir paranoica, desconfiada. Ela passa a achar o tempo todo que as pessoas estão falando sobre ela, pensando nela. Essa sensação constante aumenta um estado de alerta que gera ansiedade, uma preocupação social excessiva: 'Será que eu tenho sido adequado para as pessoas? Será que eu sou querido?"

EXPOSIÇÃO EXCESSIVA E FALTA DE REGULAÇÃO ÉTICA

Um dos fatores que intensifica esse fenômeno cancelamento é o fato de as pessoas se exporem cada vez mais nas redes sociais, o que abre espaço para que suas intimidades sejam utilizadas contra você, diz Anna Paula Zanoni, doutoranda em Psicologia Clínica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Essa exposição nociva vira um campo para as discriminações, ameaças, perseguições. O tribunal online, em que as pessoas emitem opiniões sem filtros, acaba sendo palco de situações de humilhações, que é um dos sentimentos mais impactantes, traumáticos e que abalam a autoestima em termos de saúde emocional”, explica.

Para a psicóloga, isso ocorre pelo fato de ainda não haver “regulações éticas” bem estabelecidas no mundo digital, o que leva usuários a dizerem coisas que não falariam ao vivo. A solução para todos os impactos nocivos, concordam os especialistas, é por meio de uma maior educação digital. Apesar de o tema ter ganhado mais espaço ultimamente, ainda está longe do ideal frente ao tamanho do papel das redes nas nossas vidas, dizem.

Guilherme Polanczyk ressalta a importância de o assunto entrar no currículo escolar e ser abordado entre os mais novos antes de eles começarem a utilizar as redes. “A educação para o uso das redes sociais e da internet precisa ser muito cedo para que as crianças, que muitas vezes entram nas redes com 12, 13 anos, tenham as ferramentas para entender como elas devem se colocar nelas. Não só no sentido de se expor, mas nas suas atividades: o que falam em seus comentários, suas interações com os outros, como se comportam”, explica ele.

DESFECHOS PODEM SER TRÁGICOS

A longo prazo, o problema do julgamento de pessoas pode levar a desfechos mais drásticos de saúde. Dois casos do tipo, que levaram as vítimas a tirarem a própria vida, repercutiram na mídia no último mês. Jessica Caneda, de 22 anos, havia sido alvo de críticas online após a circulação de imagens que simulavam, falsamente, conversas íntimas dela com o humorista Whindersson Nunes. Já PC Siqueira, de 37 anos, um dos influenciadores mais conhecidos no Brasil, foi “cancelado” após publicações no X exibirem uma suposta conversa em que compartilhava fotos íntimas de menores. A Polícia Civil de São Paulo, no entanto, não encontrou nenhum registro que fosse capaz de incriminá-lo, e o influenciador alegava se tratar também de imagens manipuladas. Ambos sofriam de depressão.

Guilherme Polanczyk, professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência na Universidade de São Paulo, destaca que o impacto do julgamento alheio nas redes é mais nocivo entre os jovens, que estão no momento de descobrir quem são: “A adolescência é esse momento de desenvolvimento da autoimagem, e a opinião da sociedade se torna muito importante. Ele vai ficar mais suscetível a essas opiniões, que muitas vezes são dadas sem reflexão. As pessoas colocam de uma forma impulsiva qualquer impressão, o que para ela que está do outro lado pode ter um impacto enorme em como ela se vê.”

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