Uma onda de calor com duração acima de cinco dias torna as pessoas vulneráveis a uma série de problemas de saúde, de desidratação a aumento no risco de ter infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Quando a temperatura ambiente fica acima de 32°C, o corpo humano desencadeia mecanismos de termorregulação para se manter na temperatura adequada. Em geral, a recomendação é evitar a exposição ao sol entre 10h e 16h, mas, dentro dessa faixa, o pior período é a partir das 14h, quando, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), ocorrem as temperaturas máximas do dia.
As temperaturas começam a evoluir para a máxima por volta de meio-dia, mas é na faixa das 14h às 16h que a radiação aumenta e as estações meteorológicas costumam registrar o pico de calor do dia - explica Andrea Ramos, pesquisadora do Inmet.
Segundo a cardiologista Cristina Milagre, do HCor, a temperatura interna de equilíbrio do corpo humano fica entre 36,5°C a 37,5°C e o máximo que ela pode alcançar é entre 40ºC e 41°C.
De acordo com Cristina, nas ondas de calor, como a que vai ocorrer em boa parte do Brasil de hoje a domingo, o melhor cenário é que o ar fique seco, porque a umidadealta dificulta a sudorese. Estudos mostram que o aumento de 1° na temperatura ambiente é suficiente para aumentar o estímulo da transpiração em 10 vezes. No geral, são desaconselhadas atividades físicas a céu aberto durante os horários mais quentes do dia. A cardiologista afirma que o melhor é praticar exercícios no início da manhã ou no fim da tarde, quando a temperatura começa a cair.
O exercício físico aumenta em até 20 vezes a taxa de produção de calor do corpo, dependendo da intensidade dele, forçando o sistema de termorregulação a manter o equilíbrio - diz Cristina.
A taxa de produção de calor é uma corrente gerada dentro do organismo pelo trabalho muscular. Essa corrente flui para a pele, para trocar calor com o meio ambiente na forma, principalmente, de suor. Quanto mais úmido o ambiente, maior a dificuldade para fazer essa troca, dificultando o resfriamento do corpo. Quando a umidade do ar está muito baixa, ocorre o contrário, um excesso de evaporação e, em geral, as pessoas não percebem o excesso de suor e essa perda de líquido favorece a desidratação. Cristina ressalta que a perda de água obriga o corpo a consumir mais oxigênio, agravando os riscos de doenças vasculares. As pessoas não infartam apenas porque uma veia entupiu, mas também pela oferta de oxigênio. Quando ocorre um desequilíbrio por desidratação, o coração tem que trabalhar mais.
Um estudo feito pelo Instituto Robert Koch, a agência pública alemã para controle e prevenção de doenças, afirma que o calor pode agravar condições pré-existentes, como doenças do sistema cardiovascular, do trato respiratório ou dos rins, e desencadear efeitos colaterais potencialmente prejudiciais para vários medicamentos.
"Pessoas com diabetes também correm maior risco de serem hospitalizados durante eventos de calor. Semelhante à doença pulmonar, esses pacientes têm capacidade de resposta termorregulatória prejudicada nos pulmões a nível vascular, como a exposição ao calor afeta a autorregulação dos vasos sanguíneos, levando a uma tendência aumentada para formar coágulos", diz o estudo. Em regiões de climas quentes, observa a pesquisa, pessoas que trabalham ao ar livre são mais suscetíveis a fibrose renal (cicatrizes nos rins) e doença renal crônica.
Cristina Milagre diz que, em geral, o ideal é tomar diariamente 35ml de água por quilo de peso, mas as quantidades podem variar de acordo com cada pessoa. A necessidade de água não é igual para todos. Essas medidas servem como orientação geral, mas o mais fácil é: olhe a cor de sua urina. Se estiver transparente, você está hidratado. Se estiver amarela, tome mais água.
A cardiologista explica que se a temperatura corporal atingir 41 graus o corpo pode entrar em colapso pelo calor e a pessoa perder a consciência, sendo necessário adotar medidas como banhos de imersão em água fria, uso de mantas frias e administrar soro por via intravenosa. Sentir tontura, sono excessivo e moleza devem ser sinais para procurar um médico.
E DORMIR?
Com o aumento da temperatura, muitas pessoas começam a reclamar que não estão dormindo bem. E a ciência já comprovou que as duas coisas realmente estão relacionadas. Um estudo holandês mostrou que os distúrbios do sono crescem 11% à medida que os termômetros sobem 1ºC em áreas externas, o percentual aumenta para 24% em ambientes internos. E um outro estudo, realizado pela Universidade de Seul, na Coreia do Sul, mostra que o aumento do consumo de remédios indutores do sono está associado à elevação da temperatura.
Mas por que, mesmo para quem gosta de calor, é mais difícil ter um sono relaxante em noites muitos quentes sem recorrer à refrigeração? A resposta está na temperatura corporal. Especialistas afirmam que, para o sono ocorrer de forma adequada, além do escuro, é preciso que a temperatura corporal diminua no início do sono. Quando a temperatura externa do corpo sobe, há mais dificuldade para equilibrar a temperatura interna, e o sono não chega.
O organismo tem um mecanismo natural para diminuir a temperatura corporal. Ele entra em ação durante a tarde e a noite. Mas essa mudança é muito pequena em termos de graus, por isso, não é possível definir uma temperatura ideal para que o sono se inicie. Veja a seguir dicas para dormir melhor.
- Tomar um banho frio antes de deitar ajuda, porque isso tende a reduzir a temperatura do corpo;
- Manter-se hidratado ao longo do dia e beber água fria antes de deitar ajuda a aumentar a sensação de frescor;
- Para quem não usa ventilador ou ar-condicionado, abrir as janelas é importante para o ar fresco da madrugada entrar no quarto;
- Usar roupas bem leves para dormir;
- Manter o ar do ambiente umidificado durante as altas temperaturas.