TRADIÇÃO

Orquestra resgata primeiras fases da música caipira e oferece ‘terapia’ a idosos

Por Guilherme Matos | da Redação
| Tempo de leitura: 2 min
Guilherme Matos
O maestro Manduca; veja a Orquestra de Viola no final
O maestro Manduca; veja a Orquestra de Viola no final

O maestro Luciano Ferreira Manduca, 48 anos, folheia uma lista de partituras enquanto um grupo sentado com violas na mão o ajuda a decidir a próxima canção que será executada pela Orquestra Sertaneja Viola Cabocla. São mais de 20 integrantes, que se reúnem todas as segundas-feiras para ensaiar músicas tradicionais caipiras e, ocasionalmente, também se apresentar em palcos de Bauru e região.

O grupo decide executar as canções "Cavalo Preto" e "Beijinho Doce" - ambas são sucessos caipiras compostos em meados da década de 40 e que foram regravadas por diversos artistas ao longo dos anos. O repertório da orquestra é focado neste estilo, ou fase, da música caipira.

Os músicos compartilham de um objetivo em comum: resgatar e homenagear essas primeiras fases do gênero. Eles tentam oferecer um contraponto ao sertanejo universitário, que, segundo análise dos músicos, foca nas aventuras noturnas proporcionadas por baladas e "amores" efêmeros, comuns à vida moderna.

Manduca explica que, nas músicas antigas, existia uma preocupação com a história. "Antigamente, as canções contavam uma história através da poesia. Os ouvintes escutavam e refletiam sobre as composições e, por isso, apreciavam aquela narrativa", explica o maestro.

A visão de Manduca, compartilhada pelos violeiros, valoriza os músicos do início e meio do século XX, que narravam o cotidiano do povo sertanejo, suas tradições e costumes.

As composições do período continham um caráter de tradição oral, transmitindo oralmente de uma geração para outra a cultura do grupo. Neste sentido, os senhores que compõem a orquestra tentam reproduzir esse comportamento para transmitir à geração atual o conhecimento que lhes foi passado.

O grupo possui uma amplitude de idades entre os violeiros. Os integrantes mais velhos beiram os 80 anos de idade, enquanto o mais jovem tem apenas 25 anos. Manduca explica que a orquestra é especialmente importante para os mais idosos que a frequentam. Segundo ele, o grupo funciona, também, como uma espécie de terapia.

"Lá, além da convivência em grupo, que é apontada por especialistas como essencial para a melhor idade, os idosos também movimentam o corpo, ativam a memória e se sentem valorizados", explica o maestro.

Ele cita o exemplo de Ismael Henrique Patrício, 84 anos, que foi vítima de um AVC há algum tempo. O homem se manteve participando dos ensaios e sua recuperação foi enriquecida pela música. Com apoio de Manduca, Ismael compôs a música "Viola Cabocla", escolhida entre outras composições da orquestra para "representar" o grupo.

Sua esposa, Maria Aparecida Cardoso Patrício, 80 anos, que também participa da orquestra, afirma ser muito grata ao maestro. Ela ressalta, ainda, o papel na recuperação de seu marido e a dedicação do maestro aos participantes. Cidinha, como é conhecida carinhosamente, é a anfitriã dos ensaios do grupo - que ocorrem toda segunda-feira na casa dela e de Ismael. Ao final dos encontros, os integrantes ainda podem degustar salgadinhos, sucos e refrigerantes na mesa de jantar da matriarca.

Orquestra de Viola (crédito: Guilherme Matos)
Orquestra de Viola (crédito: Guilherme Matos)

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