As coisas precisam de nome. Sem nome, não existem. Amor-vivo e amor-cansado. Pronto, nomeei. E, se assim faço, é só pela necessidade de dizer. No amor-vivo, os parceiros são namorados. Estão sempre se buscando, querem a alegria de juntos estarem. Um jantarzinho, vinho, filme, pipoca, música, conversa boa, risadas, mãos dadas... Há, no amor-vivo, um cuidado vigilante com tudo que é dito. Palavras, só aquelas boas de rir e de namorar. Qualquer descuido, a conversa chata põe tudo a perder. Coisa irritante, broxante, vontade de ir embora, um comprimido, dormir.
No amor-cansado, os parceiros são marido e mulher. O prazer, se nisso prazer existe, é o de estar só. Cada um no seu canto, com as suas minhocas e botões e que o outro fique bem lá, onde está. Que coisa boa o celular e com os amigos conversar. Na mesa, nada ou quase nada falam. E, se falam, é coisa de chatear. Ouve-se apenas o tilintar do garfo, da faca, do copo e da colher. Ensimesmados, mastigam um silêncio dolorido, difícil de digerir. Depois, noite alta, dormem de costas um para o outro, mas só depois de um educado boa-noite.
Existe nessa crônica uma casca de banana tão fácil de escorregar. Por isso, é preciso ressalvar. Claro que existem casados que são namorados. Aliás, é assim que deve ser. Mas existem também namorados que parecem muito casados. "Muito casados" será que a gente pode assim dizer?
O segredo do caminho longo e difícil é um só: namorar. E, se casar, o namoro continuar. Casados ou solteiros, pouco importa, o segredo é cuidar das pernas do amor para que não possam cansar. Não gosto do discurso maldoso que defende ser o amor um doce que, com o tempo da rotina, não mais consegue adoçar. Nada disso. O amor-vivo resiste, tem pernas de se reinventar. Nada de conto de fadas, os dias serão difíceis, espinhosos, momentos haverá conturbados, tristes e perigosos. A vida assim sempre será. Mas o amor-vivo sabe usar o tempo a seu favor, sabe dele florir e se alimentar. Carinhosamente, celebra a todo momento essa longa estrada de cumplicidade e de convivência familiar. Que o digam os velhinhos que de mãos dadas aproveitam a tarde calorenta para um refrescante sorvete de limão. Só o sorvete, claro!