ENTREVISTA

Entrevista da Semana com a professora quase centenária Dirce Leme Guimarães

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Tisa Moraes
Dirce Leme Guimarães
Dirce Leme Guimarães

Uma vida bem vivida

Do alto de seus 97 anos, Dirce Leme Guimarães segue sorridente, comunicativa, independente e com saúde que, segundo seu médico, é igual à de uma mulher com praticamente metade de sua idade. Em Bauru, ela construiu sua trajetória quase centenária, que incluiu muito trabalho, por sete décadas, em várias frentes.

Foi professora na rede estadual de ensino, costureira, boleira e dona de butique, além de ter realizado trabalhos beneficentes, como desfiles de moda, em que arrecadava fundos para fazer doações a entidades da cidade. Casou-se com o advogado Oliciar de Oliveira Guimarães, ex-vereador já falecido que dá nome a uma rua no Jardim Aeroporto, e, ao lado dele, descobriu que lugar de mulher também é na política.

Foi candidata a uma cadeira na Câmara por duas vezes, em uma época que poucas ousaram fazer o mesmo. Com Oliciar teve o filho Arcilio. Nascida em uma fazenda em Avaí, Dirce mudou-se para Bauru ainda na infância, com a mãe e uma irmã, outras mulheres à frente de seu tempo. Inspiradas nelas, dedicou toda a sua longeva vida a ser um exemplo positivo em meio à persistência da maldade, descrença e intolerância no mundo.

E, com tantas histórias para contar, ela revela que não descarta, inclusive, a possibilidade de, um dia, ter um livro biográfico. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista, concedida em seu apartamento, com direito a canjica e bolo de limão à reportagem.

JC - Como foi a infância da senhora?

Dirce - Nasci em uma fazenda, em Avaí. Meu pai produzia algodão, banana, vendia para a região inteira. Ele tinha quatro filhos do primeiro casamento e eu e minha irmã, Lair, do segundo, com minha mãe. Foi uma infância com muita liberdade, na natureza. Eu andava a cavalo com quatro anos. Fiquei lá até os sete anos, quando minha mãe decidiu mudar-se para Bauru para que as filhas pudessem estudar, porque não tinha escola na zona rural. Meu pai não quis vir, eles se separaram e viemos as três morar em Bauru, com um tio, irmão da minha mãe, que era fazendeiro e tinha casa na cidade. Minha mãe era uma mulher muito evoluída, enxergava longe, e eu me inspirei nela.

JC - E a senhora e sua irmã conseguiram se formar?

Dirce - Minha mãe falava que queria as filhas doutoras. Olha só o que é o poder da palavra. Foi como uma profecia: fiz quatro faculdades: pedagogia, desenho, educação artística e artes industriais, e minha irmã se tornou procuradora da República. Trabalhei fazendo muitas coisas. Trabalhar é vida. Tive um salão de costura com a melhor costureira de Bauru. Fui professora de alunos do ginásio (atual ensino fundamental 2) em Bauru, Duartina, Lucianópolis, Iacanga. Tive uma butique, a La Femme, que funcionava junto com um salão de beleza, ao mesmo tempo em que fazia e vendia bolos e maioneses enfeitadas. Organizei vários desfiles de moda beneficentes, inclusive fora de Bauru, com modelos que tinham projeção na cidade, cabeleireiros e maquiadores de São Paulo. Um exemplo foi o desfile que fizemos no BTC para comprar berços ao Hospital de Base, quando ele foi inaugurado (na década de 1950).

JC - A senhora possui uma atuação forte para ajudar o próximo?

Dirce - Passei a vida toda fazendo isso. Faço campanhas do agasalho desde 1955. Ia com mais três amigas a São Paulo, comprávamos flanelas e doávamos para cinco ou seis entidades. Fiz campanha de Natal para jornaleiros, engraxates. E, no prédio onde moro, fui síndica por 16 anos, onde também fiz campanha do agasalho, além de 49 obras de melhorias na estrutura. Sempre estive envolvida em projetos maravilhosos e ainda não morri porque tenho muita coisa a fazer. Deus me deu inteligência e honestidade para ser útil à humanidade, ser exemplo de uma vida positiva em meio a um mundo de muita maldade, descrença e intolerância.

JC - E era esse espírito que a senhora levava também para as salas de aula?

Dirce - Eu contaminava as crianças com isso. Salvei uma vida e essa foi uma das histórias mais bonitas da minha trajetória. Um aluno de 17 anos, da turma noturna de uma escola estadual em Duartina, era um ótimo aluno, alegre e começou a ir mal, ficou triste e desleixado. Em uma aula em que fiz um bate-papo, ele revelou que estava pensando em se matar naquele dia, porque não suportava o padrasto. Conversei com ele, expliquei que ele deveria lutar, que ainda enfrentaria muitos problemas ao longo da vida, mas deveria ter força, controle e fé. Lembrei que ele tinha casa, a mãe e uma vivência para desfrutar que poderia ser tranquilamente feliz. Ele desistiu daquela ideia e recebi cumprimentos até do dirigente regional de ensino.

JC - Assim como seu marido Oliciar (ex-vereador já falecido), a senhora atuou na política?

Dirce - Meu marido era político, fez projetos fantásticos, e me tornei assessora dele. Fui candidata a vereadora duas vezes, falei em 80 comícios, em um tempo em que mulher na política era palavrão. Só tinham eu e mais duas, na época. Uma amiga minha questionava como eu tinha coragem de subir em um palanque cheio de homens, mas eu tinha uma visão adiantada, de que precisávamos de mais mulheres representando mulheres. Eu fui feminista sem saber.

JC - E a senhora segue sendo uma mulher independente. Qual é o segredo para uma vida tão longa e ativa?

Dirce - O segredo para viver é trabalhar, fazer o que preenche a alma. Eu dirijo carro até hoje. Renovei a CNH com louvor por mais três anos. Viajo para visitar minha família, passear. Moro sozinha, com Jesus Cristo e Maria. Meu médico fala que eu tenho a vida igual a de uma pessoa de 50 anos, com saúde, atitude, capacidade de tomar decisões. Minha memória é boa. Quem me conhece fala que minha vida daria um livro, porque transmito alegria de viver às pessoas, e eu não descarto a possibilidade de contar minha história em um.

O que diz a professora:
'Sempre estive envolvida em projetos maravilhosos e ainda não morri porque tenho muita coisa a fazer'
'Eu tinha uma visão adiantada, de que precisávamos de mais mulheres representando mulheres. Eu fui feminista sem saber'
'Quem conhece fala que minha vida daria um livro, porque transmito alegria de viver às pessoas'

Dirce na ocasião do desfile de moda que organizou no BTC (crédito: Arquivo pessoal)
Dirce na ocasião do desfile de moda que organizou no BTC (crédito: Arquivo pessoal)
Sua imagem em material de divulgação de sua campanha a vereadora (crédito: Arquivo pessoal)
Sua imagem em material de divulgação de sua campanha a vereadora (crédito: Arquivo pessoal)
Dirce na formatura do curso de corte e costura (crédito: Arquivo pessoal)
Dirce na formatura do curso de corte e costura (crédito: Arquivo pessoal)
Dirce acompanhada pelo filho Arcilio (crédito: Arquivo pessoal)
Dirce acompanhada pelo filho Arcilio (crédito: Arquivo pessoal)

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