OPINIÃO

A era da ebulição

Por Paulo Cesar Razuk |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica - Faculdade de Engenharia da Unesp – Bauru

A edição de agosto da Revista Pesquisa Fapesp traz, em um de seus artigo, os desafios de uma empresa de Valinhos que recebe painéis solares inutilizados. Só em maio desse ano, essa empresa recebeu perto de 80 toneladas desses módulos de produção de energia fotovoltaica descartados. Já há três anos no mercado de reciclagem, coletou cerca de 25 mil painéis ou quase 730 toneladas.

O que fazer com as placas inutilizadas é uma questão que preocupa. Países europeus começaram a utilizar essa fonte de energia já no início dos anos 90 e como a estimativa da vida útil desses painéis é de 25 a 30 anos, há uma imensa quantidade de módulos que já viraram sucata. Foram para o lixo por vários motivos: redução significativa na eficiência de conversão, danos na montagem, na manutenção ou causados por vendavais ou outros agentes externos.

Essas placas contém vidro (70%) e alumínio (18%), mas também o silício da célula solar, cobre, prata e outros metais (chumbo, cádmio, estanho) em menor quantidade. Segundo o Físico Francisco Chagas Marques, do Instituto de Física da Unicamp, citado pela referida revista, a reciclagem desses materiais, ainda que valiosos, é dispendiosa e não rentável. Desse forma, o que se efetivamente aproveita são o vidro que protege o painel, o alumínio da moldura e o cobre dos fios.

Outro problema relacionado às alternativas energéticas é o destino das bateria dos carros elétricos quando perdem a autonomia ou deixam de carregar. Além de perigosas, maiores, mais pesadas, estão carregadas com uma mistura lítio, magnésio, cobalto e níquel cuja separação é extremamente difícil e onerosa, apesar dos esforços de algumas montadoras em baixar esse custo.

Portanto, é um tanto enganoso pensar que adquirir um carro elétrico é preservar o meio ambiente, não só por esse problema, mas pelo fato dele se alimentar da energia elétrica obtida pela queima de combustíveis fósseis ou radiativos.

Aqui temos a hidroeletricidade em maior escala, no entanto, o sistema ficará sobrecarregado quando o número de carros elétricos aumentar ou passarmos por uma estiagem mais severa.

A Europa tem apenas sete anos para transformar toda sua indústria automotiva em produtora de carros elétricos. Penso que 2030 é uma data que será prorrogada, até pela enorme cadeia de empregos da indústria de peças para os motores a combustão.

Outro desafio vinculado aos carros elétricos é o preço do lítio, do cobalto e do sistema de refrigeração dessas baterias, porque quanto mais rápida for a carga, mais sofisticado e caro será esse sistema.

Isso tudo nos leva ao comentário do Secretário da ONU, Antônio Guterres. Ao mencionar que o mês de julho foi o mais quente já registrado na história, acrescentou: "passamos da era do aquecimento global para a era da ebulição". Guterres salientou o que já se sabe.

Os recordes de temperatura têm um impacto severo na saúde das pessoas, na produção de alimentos e na economia de uma maneira geral. Tudo o que observamos agora estava previsto nos avisos feitos pelos especialistas. Segundo ele, a grande surpresa está na velocidade das alterações climáticas.

Hoje, praticamente todas as grandes cidades estão se tornando inabitáveis ou pelo excesso de gente, pela criminalidade ou pela poluição do ar: Deli, Mumbai, Xangai, Beijing, Lagos, Cairo e Cidade do México são algumas delas. Isso levou o jovem ativista Aman Sharma a conclamar: "reivindicamos nosso direito de viver, nosso direito de respirar e nosso direito de existir. Direitos dos quais estamos sendo privados por um sistema de políticas ineficientes que leva mais em consideração os objetivos industriais e financeiros do que os padrões ambientais".

Para reverter toda essa situação é preciso que alguns setores da economia e indicadores sociais decresçam enquanto outros cresçam. Uma questão delicada que a humanidade terá de encarar com seriedade, sem perda de tempo e sempre com muito equilíbrio.

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