Desconfio, às vezes, que parecemos Dom Quixote em busca de moinhos de vento com os quais possamos duelar. Veja aí a direita versus a esquerda, bolsonaristas contra petistas. Parece tudo uma narrativa urbana ficcional, quando não, ridícula. Na hora que é preciso dividir o poder eles se entendem. Em política não existem inimigos irreconciliáveis.
O capitalismo e o comunismo dominaram o panorama do século 20, mas hoje deram lugar a sociedades nas quais a ideologia ficou aguada na modernidade líquida. Recapitulando a teoria do sociólogo Zygmund Bauman (morreu em 2017), no século passado as relações eram mais sólidas. Agora, elas se guiam mais pelos interesses econômicos e a lógica do consumo. O governo Lula teve que liberar R$ 7 bilhões em emendas de interesses dos parlamentares, para ter votos favoráveis à Reforma Fiscal. A cada projeto, mais dinheiro. Parte do PL, partido de Bolsonaro, já aderiu. Afeto e atenção também se compram. "Se você diz que me ama, faz um pix". Amor verdadeiro líquido.
O desafio de superar as agressividades entre rivais pode ser transposto, com muitas concessões entre as partes em conflito. Assim é a modernidade líquida.
O maior perigo é quando a rivalidade fica dominada pelo fanatismo, em que cresce a paranoia, pois cada parte se imagina com toda razão. É quando duelos, até em festa de aniversário, podem terminar em morte.
Esse negócio de aceitar o "outro" que pode não pensar como você, mas também é digno de respeito, talvez se torne parte da nossa cultura, numa próxima geração. Tenhamos fé.
O humorista Stanislaw Ponte Preta, se estivesse vivo, teria material de sobra para, pelo menos, mais dois volumes do seu "Febeapá - Festival de Besteiras que Assola o País". Numa das suas frases lapidares, dizia que "Ninguém atinge a notoriedade impunemente". Os ministros do STF, antes sólidos e discretos guardiães da Constituição, de repente se transformaram em popstars, astros televisivos e conferencistas com viagens patrocinadas. Agora pagam o preço. No Aeroporto de Roma, membros de uma família que não conseguiu entrar na Sala ViP, vendo a facilidade de ingresso da comitiva do ministro Alexandre de Moraes, desabafaram com alguns adjetivos: "bandido", "comunista", "comprado". A colega do ofendido, ministra Rosa Weber, achou que o "entrevero" confessado poderia se configurar em crime contra o Estado Democrático de Direito. Autorizou os Federais a fazerem uma "fishing expedition" nos domicílios dos acusados, às 6 horas da manhã. Trata-se de uma estratégia jurídica ilegal de fazer uma operação para encontrar provas que vão além do suposto crime investigado.
Bolsonaristas já cansaram de berrar "Ei, Xandão, o seu lugar é na prisão". O ex-presidente Jair Bolsonaro, chamou-o de "canalha, otário e imbecil", por ter sentenciado defensores do AI-5. Nem por isso o regime democrático caiu. Outro membro do Supremo, Luiz Roberto Barroso, ao negar a adoção do voto impresso, foi chamado de "imbecil, idiota e filho da p..." Revidou com o "Perdeu, Mané. Não amola". Mimosearam Cármen Lúcia com o título de "Bruxa de Blair, Cármen Lúcifer" e de "prostituta", por ter dado direito de resposta a Lula na Jovem Pan. Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski cansaram de ouvir repertório ainda maior, aqui e fora do país. Todos sobreviveram. Diz o provérbio português: "Ninguém se livra de pedrada de doido e nem de coice de mula". Barroso até se vangloriou, no último dia 12: "Nós derrotamos o bolsonarismo".
Como não poderia ficar de fora, Lula comparou os envolvidos em suposto ataque a Alexandre Moraes de "animais selvagens". No voo, de volta, aproveitou a escala em Cabo Verde para agradecer os escravos que a África mandou para nós, durante 350 anos, sem os quais não seríamos o que somos.
A fina flor dos Ponte Preta, infelizmente, morreu muito cedo.
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