Bauru. Sábado último (15), 4h15 da madrugada, menos de 10 graus nos termômetros.
Depois de uma noitada com os amigos e de ter comido um lanche lotado de maionese verde em um estabelecimento na av. Nações Unidas, encontro um morador em situação de rua que olhava os carros por ali.
Ao procurar algumas moedinhas para pagá-lo, ele retruca: "Vai me dar só umas moedinhas, chefe? 4h da manhã nesse frio e vai me dar só umas moedinhas? Não comi nada hoje, pô!".
Acho até engraçado a "reclamação". Ofereço, então, um lanche e pergunto qual ele gostaria. "Pode ser um X-Salada? Com uma Coquinha?", responde ele. Quando vou lá pedir e pagar, o homem aparenta certa incredulidade. "É sério mesmo que você vai me dar um lanche? E com a Coquinha e tudo?".
Enquanto eu fazia o pedido do sanduíche, um outro carro sai e dá R$ 3,00 ao guardador de carros. Quando volto, para minha surpresa, o homem insiste em me repassar os tais R$ 3,00 recém-obtidos para ajudar como pagamento do lanche.
Mesmo com muita insistência dele, não aceito, claro, o dinheiro. Mas, naquele momento, ele me deu muito mais que R$ 3,00. Ele me deu uma certa dose de esperança. Ele me deu a lição de que não devemos julgar quem está ali, naquelas condições. Ele me deu a certeza de que, apesar das escolhas erradas que fazemos na vida, merecemos um pouco de dignidade.
Naquele momento, aquele guardador de carros que não tinha nada me deu muito. Ele me deu a visão para enxergar um ser humano de pé diante de mim, mesmo que a miséria insista em deixar essas pessoas cada vez mais na invisibilidade.
Virei as costas e ele, com um sorriso surrado pela vida, agradeceu. Porém, quem precisa agradecer sou eu. Obrigado.
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