OPINIÃO

O Brasil no mapa da fome

Por Zarcillo Barbosa |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é jornalista e articulista do JC

O porta-voz da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), anunciou com um indisfarçável tom de indignação, que 70 milhões de brasileiros lidam com algum tipo de insegurança alimentar. Significa que um terço da nossa população tem acesso reduzido a alimentos com um mínimo de qualidade e quantidade para prover um ser humano com as calorias e proteínas necessárias. São aqueles que fazem fila na porta dos fundos do açougue para conseguir ossos com alguma pelanca, ligamentos e cartilagens.

A pesquisa do órgão mundial refere-se ao período de 2019 a 2021. O número de pessoas com fome no Brasil "deveria ser igual a zero", como observou aquele representante. Afinal, ele se referia a um país que é o maior produtor de alimentos do mundo.

A pujança do agronegócio brasileiro dá saltos de produtividade. Somos campeões mundiais em soja e proteína animal. A safra de grãos deve ultrapassar 312 milhões de toneladas e mais de 20 milhões de brasileiros ficam sem comer um dia ou mais. O problema não é a falta de alimentos, mas de acesso a eles. Com essa vergonhosa performance, voltamos ao Mapa da Fome da ONU. Se estivemos fora dele no passado, foi porque a merenda escolar teve papel importante, até ser congelada em 2017.

As causas, segundo os especialistas, são debitadas à instabilidade nas políticas de renda, à pandemia, à suspensão do Auxílio Emergencial; tivemos eleição e desmonte nas políticas alimentares, com consequente queda de investimentos na merenda. É verdade que na segunda metade do ano eleitoral, a ajuda governamental em dinheiro voltou.

O Tribunal de Contas da União, em dezembro do ano passado denunciou desvios de recursos para 3,5 milhões de pessoas com renda acima do limite para fazer jus aos benefícios. Pagamentos indevidos somaram mais de 2 bilhões de reais por mês. O pacote de bondades incluía 13º para mulheres. A distribuição também pouco ajudava a reduzir a pobreza e a desigualdade porque privilegiava famílias de apenas uma pessoa em detrimento de lares de crianças e adolescentes, e de mães solo com filhos. Lula cuida agora de consolidar o Bolsa Família, com um mínimo de 600 reais e adicional de 150 reais para crianças e mais 50 para gestantes. A boa notícia é que em junho, 18,5 milhões saíram da linha da pobreza. Pelo menos é possível ter uma visão mais positiva. O mais trágico é a fome das crianças, desde o útero, ocasionando déficits de crescimento físico e atrasos cognitivos irreparáveis. "Emaciação", é como os médicos chamam a perda de massa muscular e de gordura.

No século 18, na Irlanda assolada pela fome, o escritor Jonathan Swift (1729), mais conhecido como autor de "As Viagens de Gulliver", chegou a editar um panfleto apócrifo, sugerindo que as crianças pobres, em vez de se tornarem um fardo para os pais e o país, deveriam ser vendidas para serem "apreciadas" grelhadas, assadas ou cozidas. "E, assim, se tornarem benéficas para a República". Horrorizado com mães pedindo esmolas nas ruas de Dublin, seguidas de três, quatro, seis crianças, todas em farrapos, Swift decidiu chacoalhar a Opinião Pública fazendo-a pensar pelo avesso.

A autoria da publicação foi reconhecida pelo estilo inconfundível. As pessoas de posse e agentes governamentais decidiram agir e ajuda internacional começou a chegar. A ironia que poderia ser tachada de mau gosto, mórbida, chamou a atenção para o que, na verdade, era um grito de angústia.

Apesar do lapso temporal, é de uma incrível atualidade em relação à realidade mundial e, sobretudo, brasileira. Em Bauru, há abnegados conhecidos pela resiliência na luta em socorro dos famintos. Quantos são os que passam fome, ninguém contou ou, se existem dados, não são divulgados. Com comida suficiente no mundo para alimentar toda a população, a falha, com certeza, não está com Deus.

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