As ferrovias geralmente estão associadas a um ciclo econômico, fazendo parte da história e da memória afetiva dos cidadãos, tornando-se um patrimônio histórico e cultural.
Por ser o Brasil um país de dimensões continentais, a retomada desse modal de forma estruturada, organizada e planejada trará gigantesco desenvolvimento econômico, social e ambiental.
Se utilizada no transporte de cargas, se comparado ao transporte rodoviário, além da redução do custo do frete, teremos a redução de acidentes e de poluentes.
Bauru surgiu e cresceu em função da ferrovia. Foi por meio dela que se intensificou o comércio e a circulação de pessoas. Além do transporte de carga, havia também o transporte de passageiros. A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil era a grande responsável pelo transporte de passageiros de Bauru para diversos lugares do Brasil. Posteriormente, foi incorporada à Rede Ferroviária Federal (RFFSA).
Nos anos 80, sem investimentos do governo Federal, iniciou-se um período de agonia das ferrovias, com sucateamento de toda malha ferroviária. Já nos anos 90, começam os processos de concessão para a iniciativa privada. Em Bauru, tivemos inicialmente a Ferrovia Novoeste S.A., que alguns anos depois fundiu-se à Ferronorte e Ferroban, por um consórcio da Brasil Ferrovia S.A. Em 2006, esta fundiu-se à América Latina Logística, pertencente à Rumo Logística, detentora da concessão até o momento.
Ainda na década de 90, o transporte de passageiros sucumbiu ao transporte rodoviário e viu seu movimento cair a quase zero. Como consequência, o comércio dos arredores da estação ferroviária teve forte declínio. Vários hotéis que tinham muitos clientes passaram a ser ociosos, fato que afetou muito a dinâmica da região central.
Atualmente, o único transporte ferroviário no município é o de cargas e de forma decrescente.
Bauru encontra-se inserida na Malha Oeste ferroviária, sendo que em 2020 a Rumo iniciou um processo de devolução da mesma. Recentemente, o Governo Federal e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) iniciaram o processo de re-licitação de parte do trecho, com previsão de que vá a leilão em 2024, tendo como prazo de concessão 60 anos. O trecho corresponde a mais de 1.600 km entre as cidades de Corumbá e Mairinque.
É nesse contexto que ressurgem os debates sobre importância, a situação atual e futura da malha ferroviária em Bauru.
Bauru é sede do maior entroncamento ferroviário da América Latina, no entanto, encontra-se em situação degradante, estruturas abandonadas, vagões em decomposição, estações destruídas, mato, lixo, trazendo muita insegurança e indignação.
Se por um lado, temos tantos problemas urbanos, por outro lado a ferrovia apresenta inúmeras possibilidades de soluções. Na questão econômica a ferrovia, se bem utilizada, é sinônimo de riqueza, de geração de emprego e renda, integração regional e nacional no transporte. No aspecto o histórico-cultural a cidade se engrandeceria ao contar sua história a partir da restauração, recuperação e uso de tantos prédios, galpões e estruturas existentes, dando a esta sua verdadeira função social. Espaços para servirem de encontros, de interação, de convivência e de conhecimento, a exemplo do Museu Ferroviário Regional. Não menos importante, o potencial turístico que poderia atrair visitantes, já que o entroncamento ferroviário de Bauru possui rico patrimônio arquitetônico, onde se destaca a estação ferroviária, com características únicas, que testemunham a grandiosidade da ferrovia no passado.
É evidente que a ferrovia tem papel fundamental para o desenvolvimento da economia brasileira e nosso município tem papel relevante nesse contexto. O barateamento do transporte de carga pode ser efetivado através desse modal, reduzindo o custo Brasil e gerando riqueza de forma sustentável.
Bauru é cortada pela ferrovia de leste a oeste e do centro à região sul, passando por diversos bairros. Com a pretensão de utilização das ferrovias de forma constante, é preciso prever os impactos decorrentes, bem como as ações necessárias para potencializar os impactos positivos e mitigar os negativos.
Fatores importantes de mobilidade, como o uso da malha ferroviária para o transporte urbano, assim como outros modais, não podem ficar à margem dos debates, já que as ações e decisões de hoje definirão a cidade que teremos no futuro.
Além da manutenção da ferrovia é necessário dar vida à mesma. Trata-se de um patrimônio público que já teve um passado glorioso e que pode ser o elemento estruturante do planejamento de nossa cidade.
Um processo como esse de relicitação da ferrovia, de tamanha envergadura deveria ter tido como premissa a efetiva participação dos municípios, no entanto, foram realizadas somente duas audiências públicas, uma em Campo Grande e outra em Brasília. Além disso, o pouco tempo estipulado para apresentação de propostas pode ser considerado inadequado. Fatos estes, que não reduzem a nossa falta de protagonismo, escancarando a necessidade de planejar para curto, médio e longo prazo, especialmente sobre importantes temas urbanos.
É necessário ampliar esse debate com toda a sociedade, com os poderes constituídos, entidades, universidades, conselhos, para que independentemente do processo de relicitação da malha Oeste, encontremos as melhores soluções e projetos para Bauru e região.