"Jesus usaria as redes digitais?" - esta pergunta tem sido formulada e as respostas não passam de palpites. Talvez Ele postasse fotos da multidão que o seguia pela fé e até citasse as parábolas divulgadas no Novo Testamento.
Jesus, vendo a multidão à beira do Mar da Galileia, não por acaso procurou o Monte das Beatitudes (nome atual) para expor as bem-aventuranças. Ficou em posição mais elevada perante o auditório e, as pedras ao redor garantiam a acústica para ser ouvido. "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus". Ensinava um estilo de vida e um caminho coerente para a sociedade empobrecida que clamava por Justiça, por conta da exploração sob o domínio romano. Digamos, Jesus foi o primeiro "radialista" a utilizar um método para amplificar a voz.
As igrejas têm experimentado o fenômeno da e-Vangelização, ou da "religião digital". Edir Macedo, bispo da Igreja Universal, tem seu blog há uns 15 anos, com cerca de 10 mil postagens, vários deles campeões de audiência.
Nos dias de hoje, o "Ide, por todo mundo, e pregai o evangelho a toda criatura" (Marcos 16:5), fica ainda mais possível considerando o alcance da internet. Os meios eletrônicos permitem ver e ouvir, mas não nos dá aquele compromisso comunitário de ajoelhar, rezar, cantar, comungar e experimentar a ritualística da fé. Da porta do templo para dentro, quem crê fica off-line. Algumas igrejas pedem aos fieis que deixem os celulares no guarda-volumes e algumas têm detector na entrada para denunciar os desobedientes.
Em abordagem mais terrena, em matéria de tecnologia a semana terminou com uma discussão acirrada sobre a deepfake (falsidade profunda), da publicidade da Volkswagen envolvendo a figura de Elis Regina e sua filha Maria Rita dirigindo a nova Kombi elétrica. Os publicitários se utilizaram de Inteligência Artificial para projetar o rosto de Elis em uma dublê. A música de fundo, "Como nossos pais", de Belchior, alimentou uma polêmica política. A direção da Volks, em tempos de ditadura, delatou aos órgãos de segurança operários tidos como subversivos, que foram presos e torturados. A montadora chegou a pagar R$ 36 milhões, em 2020, a título de reparos pelos sofrimentos de Marias e Clarices. Elis e Belchior foram críticos ferrenhos da ditadura. A exemplo de João Bosco e Aldyr Blanc, foram solidários com tanta gente que partiu num rabo de foguete
O filósofo Walter Benjamin, que se suicidou em 1940 fugindo do nazismo, criticava a reprodutibilidade técnica do original, reproduzido como mercadoria. Na publicidade da Kombi, muita gente se emocionou com a visão da morte e transmigração da alma do corpo biológico para a forma de memória RAM. Essa possibilidade foi profetizada por W. Gibson (1984) no seu romance cyberpunk "Neuromancer". Com a cantora de Falso Brilhante, morta há 41 anos, o que houve foi a conjuração de um rosto falecido para torná-lo animado e vender carros.
Tecnologias de manipulação de imagens e vídeos podem ser divertidas. Houve quem postasse vídeos de celebridades fazendo sexo. Computadores sofisticados aprendem até como o nosso cérebro aprende. Criam também vozes e sons artificiais, idênticos aos originais. Começa como brincadeira, mas nunca se sabe até aonde vai a distorção da realidade.
Em artigo no Times, o conhecido historiador Yuval Noah Harari, escreveu ainda outro dia: "Precisamos dominar a IA antes que ela nos domine."
O que significaria para os humanos viver em um mundo onde histórias, músicas, imagens, leis, políticas e ferramentas são moldadas por computadores que sabem explorar fraquezas, preconceitos e vícios da mente humana?
Em jogos de xadrez, mais nenhum ser humano pode esperar vencer um computador. E quando a mesma coisa acontecer com a arte, a política e até a religião?