OPINIÃO

Ah, se pudéssemos não pensar...

Por Roberto Magalhães |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais

Assim, exatamente como os animais, que apenas vivem. Se vivêssemos sem pensar, nada saberíamos da morte, não carregaríamos a pedra da culpa, não saberíamos como doem a inveja, a infidelidade, o ciúme... Não teríamos a mania de acumular e exibir coisas, jamais nos ajoelharíamos diante de um igual.

Ah, se pudéssemos não pensar! Não premeditaríamos crimes, não enganaríamos o irmão e a ninguém mataríamos senão por força da sobrevivência. Em versos memoráveis, o poeta Walt Whitman confirma essa venturosa vida dos animais: "Eles não se exaurem nem gemem sobre sua condição (...) Eles não se deitam no escuro para chorar seus pecados". Isso tudo, claro, é coisa dos homens.

Ah, se pudéssemos não pensar! Desejo impossível, porque estamos inexoravelmente acorrentados à racionalidade. Nem por isso, deixamos de pensar poética e filosoficamente nessa vida venturosa de só existir sem nada questionar. Este é o paradoxo: até para imaginar a vida do não pensar, precisamos pensar. Inúmeros são os exemplos de obras e de pensadores que manifestaram o desejo de apagar a racionalidade.

Na ópera "A Flauta Magica", de Mozart, o sopro maravilhoso da flauta afasta as pessoas de todo sofrimento. É o poder da música sobre a alma humana. Entre nós, aqui no patropi, quem estava à toa na vida, ouviu a Banda, do Chico, transformar a cidade cantando coisas de amor: o homem que contava dinheiro ou vantagem parou; a moça triste na janela sorriu; o velho fraco esqueceu as pernas doentes e dançou; a gente sofrida finalmente despediu-se da dor. Ninguém mais sofreu, ninguém mais pensou enquanto a banda passava.

E o que dizer de uma suposta "máquina da felicidade?" Foi o filósofo americano Robert Nozick, em sua obra "Anarquia Estado e Utopia" (1974), que nos colocou diante do dilema de aceitar ou recusar as benesses de uma máquina que nos daria a felicidade plena. Apertaríamos o botão ou não? Vida assim, feita só de felicidade, vale a pena?

E se, para a felicidade plena, precisássemos somente de um copo de água e de única pílula? Não duvidemos de tal possibilidade. Como ignorar os avanços da bioquímica, da neurociência, da neurotecnologia? Tal pílula deixaria no chinelo os fármacos como o Prozac, Lorazepam, Fluoxetina... Lembremos que a palavra "impossível" não consta do dicionário farmacopeico. Que o diga o "azulzinho" que viagrou milagres e fez renascer o que vida não tinha mais.

Impossível, contudo, ignorar as pedras do caminho. Experimentada a pílula da felicidade, aceitaríamos retornar à insipidez e à mesmice da vida cotidiana? De que valeria a permanente alegria não sabendo mais o que é tristeza? De que vale a luz sem a escuridão? O bem-estar sem a dor? Estando todos entorpecidos e alienados pelo prazer químico, como ficariam as necessárias lutas sociais? Seria o pudim perfeito para opressores e governantes despóticos. Sem descontentamento não há luta, a história morre.

Seria o verdadeiro "pão e circo" romano. O homem seria apenas um alegrinho saciado. Nada mais desejaria, nada mais conquistaria. A felicidade só tem sentido quando é realização, é preciso merecer o doce. Eliminados os sentimentos negativos como a culpa, a vergonha, o arrependimento, o que aprenderíamos vivendo?

Seria o caos ético.

Buscar essa felicidade gratuita e eterna é desistir da vida autêntica. Uma pessoa a quem nada de ruim lhe acontecesse, não teria vivido. Só o sofrimento e a dor podem nos unir na empatia. Sem sofrer, a vida é uma mentira. Foi o que nos disse William Faulkner: "Entre a dor e o nada, prefiro a dor!"

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