OPINIÃO

Como desmontar a lógica da guerra

Por Sérgio Mauro |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor aposentado de literatura italiana da Unesp de Araraquara

Muito se discute atualmente a respeito da última guerra envolvendo duas nações europeias e, portanto, afetando diretamente os interesses dos Estados Unidos e dos aliados europeus (e até não europeus como o Japão, por exemplo). Evidentemente, o destaque não seria o mesmo se o conflito envolvesse dois países africanos, como bem afirmou, tempos atrás, o ex-presidente do Uruguai, não apenas porque os países africanos são pobres e a mídia normalmente pouco fala deles, mas também porque paira sobre o Ocidente, desde o fim da Segunda Guerra, a possibilidade de um terceiro e atômico conflito.

O conflito derradeiro, que praticamente varreria a espécie humana da Terra, nos atormenta desde a invenção das armas atômicas. Não é a primeira vez que vem à baila o espinhoso tema da possibilidade concreta de destruição em massa por bombas e mísseis assustadoramente potentes.

Na verdade, o que assusta realmente é assistir ao noticiário da televisão ou ler as notícias nos sites da internet e deparar-se com absurdas ameaças de possível utilização de armas nucleares, ameaças estas feitas tanto por líderes russos como por membros da Otan (ainda que, no caso da Otan, como possível medida defensiva contra um ataque russo).

Desmontar os gatilhos que provocam as guerras constitui tarefa ingrata e dificílima, pois praticamente equivale a compreender e prevenir todos os eventuais conflitos entre seres humanos, das briguinhas escolares entre meninos aos conflitos entre nações. O que provoca um litígio entre vizinhos não é essencialmente muito diverso do que provoca as disputas territoriais e as diatribes ideológico-religiosas entre os povos no mundo inteiro.

O desarmamento total parece cada dia mais distante e utópico. Não há país do mundo (ou são pouquíssimos) que não possua um exército e um ministério da defesa ou da guerra. Por quê? Porque se teme constantemente um ataque inimigo ou por medida de precaução mesmo em tempos de paz. É desalentador constatar que nenhum Estado acredita em uma paz permanente. Basta pensar que entre os países membros da Otan há cláusulas que preveem a imediata defesa de um território-membro em caso de agressão externa.

O que realmente provoca as guerras, de maneira geral? Seria preciso analisar profundamente a condição humana para saber por que tantos homens e mulheres odeiam os próprios semelhantes, mas torna-se possível identificar o elemento número um que ao longo da história desencadeou e ainda desencadeia os conflitos: o nacionalismo exacerbado e "falso".

Enfim, para desfazer os nós que entre os humanos provocam guerras e para desengatilhar todas as armas do mundo inteiro seria preciso acabar de uma vez por todas com o falso nacionalismo, o que finge desejar a paz entre os povos, quando, na verdade, ao reclamar para si o direito de se sentir superior aos demais povos e nações, mantém o estado de tensão e estimula a guerra permanente.

Abolir totalmente as fronteiras entre as nações pode parecer utópico, mas é possível, com alguma boa vontade, educar as próximas gerações para uma solidariedade universal entre povos e nações, respeitando costumes locais e ao mesmo tempo proclamando a igualdade suprema entre seres sujeitos à mesma condição imposta pelas forças naturais que regem o universo, independentemente da cor da pele ou da língua que possuem.

 

 

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