OPINIÃO

Nossa pavonice

Por Roberto Magalhães |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor de redação, autor de obras didáticas e ficcionais

No silêncio do claustro, o velho monge dorme o corpo dolorido na cama de pedra. Caneca e prato de lata, moringa de barro, bíblia e crucifixo, nada mais. Em vida tão reclusa, parece que o religioso nada tem a ostentar. Tem sim. Sente-se superior ao populacho que se escraviza pela posse das coisas terrenas. Desleixados, cabelos e barbas por fazer, intelectuais, avessos a qualquer grife, digladiam teses e teorias. Igualmente, nada parecem ostentar. Engano. Quem souber ver, perceberá entre eles imperiosa necessidade de coletar dízimos de admiração. No púlpito, o pastor condena o pecado da ostentação, lembrando João 2:16: "Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida não vem do Pai, mas sim do mundo." Todavia o que ele diz não encontra sustentação nas palavras enfeitadas.

Ostentar, coisa mais humana não há. Nossa cultura foi erguida com os tijolos da vaidade e da competição. Nada mais normal, portanto, que o natural egocentrismo adore se exibir na vitrine social. "Narciso acha feio o que não é espelho", poetou o Caetano. Ostentar é coisa nossa. Mas não os bens democráticos, que são aqueles que muitos têm. Ao contrário, queremos exibir os bens oligárquicos, cuja posse, em razão do alto custo, é privilégio de poucos. São eles bens posicionais que nos colocam no andar de cima e despertam-nos a inveja de quem não os pode ter.

Em alguma medida, todos somos vaidosos e igualmente ostentadores. A vaidade é apenas um braço do ego natural. Nasceu com o homem, bem antes do espelho. É o que nos mostra essa fala de um personagem milionário em Satiricon, de Petrônio, escrita em 60 aC: "Só me interessam as posses que despertam no populacho a inveja de mim por possuí-las."

Somos feitos de carne, osso e vaidade. Nossas ações, até mesmo as de natureza filantrópica, são produzidas, em boa parte, pela vaidade. Ainda que não o percebamos, a vaidade está presente em muito do que fazemos, até mesmo no reconhecimento de nossas falhas e deficiências. La Rochefoucauld apregoava: "A virtude não iria longe se a vaidade não lhe fizesse companhia."

E como a vaidade se dá bem com a primavera dos corpos. Sabe disso a beleza jovem. No espelho, enfeita-se sorrindo enquanto o tempo lhe favorece. Nem tanto o mesmo acontece com a velhice, o que explica o mau humor e a rabugice da idade. Nas redes sociais, caras e bocas misturam-se a corpos photoshopados, todos em busca de likes e compartilhamentos. Artistas e intelectuais esmeram-se no seu ofício buscando igual reconhecimento. Ninguém escapa da vaidade, coisa humana. Sem ela o que seria da nossa autoestima? Inundadas de vaidade, as academias ostentam, apesar do sacrifício dos ferros pesados, músculos hercúleos e bumbuns empinados. Clínicas de estética faturam cada vez na ponta dos bisturis. A riqueza pisa no acelerador raivoso dos carrões importados só para ostentar o ronco poderoso das cilindradas.

Nenhuma ofensa dói mais do que aquela desferida contra nossa vaidade. Quem a nega é o que mais a tem. O ato negatório é prova de quanto em si a vaidade está enraizada.

Há, contudo, um detalhe que muda completamente a linha de raciocínio. Não coloquemos todos os atos vaidosos numa gaveta só. Há diferença substancial entre eles. O que uma pessoa exibe mostra quem ela é. "Diga-me o que ostentas e eu te direi quem és" é o título de excelente crônica de Giovana Madalosso. Depois diz: "Se ostentar é humano e muitas vezes incontornável ou irresistível que ao menos seja sob uma nova ética e estética, abrindo a cauda de pavão sem derrubar outras espécies..." Ótima sugestão para refletir sobre o que temos ostentado e com que finalidade o temos feito. Cuidemos, enfim, do nosso rabo colorido de pavão.

 

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