OPINIÃO

Tudo sobre o nada

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor, autor de artigos didáticos e coautor de antologias da Língua Portuguesa

Dia desses, tudo conheceu o nada, ficaram amigos na mesma hora. Tudo parecia ir tão bem à luz da compreensão, contudo pelo escuro da discussão, nada teve uma crise existencial. Conheceu o preconceito fornido e atuante de uma sociedade que, doente e permissiva, rima dor com cor.

Pior, cumprimentou e apertou a mão de homens com fala asnática, de narcisistas fingindo oceano, quando não passam de uma poça d'água. Tudo, de todas as esperanças passadas como um suborno, e o pecado, como ameaça. De tudo que se fala e nada se aproveita. De tudo enrugando do tempo. Da escoliose, da glicose, das unhas gastas, da memória envelhecida, da vergonha amolecida, das cutículas caídas pelo chão de casa.

De tudo, melhor amar assim mesmo. À distância. Com dentes, mãos, pés e coceiras próprias. Tudo do perfume pacífico e escolar de quando nada se falava. A rua cinza, a notícia cinza, a antena cinza, a espera cinza, o solado cinza, o cinzeiro cinza e o laço de fita da menina cor-de-rosa. Nada pensava singular. Tudo, plural. Tudo de estória. Nada dizendo que uma vez... Já era! Nada faz. Sobretudo com olhos embotados de cotidianeidades. Também, tudo insiste em reconhecer nos domingos feira, macarronada, missa de moral impoluta.

Nada justifica tudo ser assim. A vida bem isto, sem receita facilitadora capaz de entendê-la. Sem metáfora capaz de ressignificar perdas irreparáveis. Avanços se dão como podem. Por dedicação, propósito. Nesse novelo a gente encontra o fio de humor, a fagulha do afeto, reticências de inquietações, pontos de criatividade. Ações e reflexões que nos justifiquem enquanto seres humanos. Experiências, convicções, convivência, engenharia incontestável ao nosso curriculum vitae, ou seja, ao nosso certificado de vida. Às vezes, nada adianta. Tudo é sempre igual. Outras, nada vale e tudo é de bom. Sobretudo quando tudo é bem-vindo em tudo que faz. Tudo bem simples como a senhorinha que, ao esticar a fronha, reconhece a geometria da permanência. Da bordadeira impossibilitada de concluir qualquer trabalho, por fios da história se romperem abruptamente.

Por tudo isso, apropriado conviver com olhos que inspecionam inocência, na singeleza dos sentidos, na delicadeza gestual. Por tudo, aconselhável isto: amar elegantemente na segunda pessoa. Vejo-te em acessos, proíbo-te nos excessos. Se nada te agradar, vale te amar na informalidade da saliva. Beijo de rodoviária, demorado de chegada e de partida. Vale beijo agiotado, com duplicidade a receber.

Aos descafeinadamente mornos, acostumados com as casas entre as bananeiras, cravo-santo, pés de manjericão, aconselhável morrer de tardezinha, junto ao sol, fechando os olhos à espera inútil dos sonhos. Morrer dormindo. Se nada disso ocorrer, morrer de olhos abertos, com olhos de Nikon fotografando o ambiente, o redor.

Um dia, você precisava ver, do nada, o Audi bateu forte contra um senhor do carrinho de reciclável. Deu pra confundir o vermelho do carro com o sangue do velho. A roupa pobre. A previsível colisão da pobreza versus riqueza. A tristeza espasmódica. Batalha injusta. Carro contra gente. Tudo, tudo sempre igual. Mas… nada adianta. Nessa batalha surda, tudo não demonstra o que sente na frente de nada. Na verdade, tem dó de nada.

Poderia tudo terminar em nada?

Tudo é relativo? Nada é questionável? Tudo tem sua hora.

Nada sabe disso.

 

 

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