BAURU

'É a Caixa que deve para a Cohab, não o contrário', afirma credor da companhia

Por André Fleury Moraes |
| Tempo de leitura: 4 min
Larissa Bastos
Newton Ribeiro Filho, sócio da Construtora LR, defende que Cohab cobre taxa de administração que deixou de receber
Newton Ribeiro Filho, sócio da Construtora LR, defende que Cohab cobre taxa de administração que deixou de receber

Sócio da Construtora LR, para quem a Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab) deve mais de R$ 600 milhões, o empresário Newton Ribeiro Filho diz que, muito antes de ser credor da companhia, é um cidadão bauruense que se preocupa com a sustentabilidade econômica do município.

A LR foi contratada pela Cohab para construir um conjunto habitacional em São Manuel ainda na década de 1990. O empreendimento seria bancado pela Caixa Econômica Federal (CEF) e financeiramente intermediado pela Cohab.

Mas o banco não repassou 37% dos valores à companhia - que, por sua vez, também deixou de pagar a LR. A construtora processou a Cohab e a Caixa. E o banco foi condenado a quitar as pendências até no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que, num julgamento surpreendente, retirou a instituição financeira do processo e transferiu toda a dívida para a Cohab.

Hoje, a LR e outras construtoras para quem a Cohab deve estão executando a companhia e, futuramente, devem penhorar bens também da Prefeitura de Bauru - sócia majoritária da Cohab. Newton, porém, admite o problema em se cobrar um débito milionário de um município do Interior.

E diz que há solução. Para ele, ao não repassar o dinheiro, a Caixa deixou de pagar também a Cohab, que retinha 6% dos repasses por força do contrato. Era a chamada taxa de administração. Ao somar as taxas de gerenciamento que não foram recebidas, diz o empresário, e aplicar a taxa mínima de juros sobre o valor, a Cohab se torna credora da Caixa - e não o contrário, como o governo acredita hoje.

Em entrevista ao JC concedida há pouco mais de uma semana, Newton não poupou ninguém de críticas. Voltou suas declarações contra o STJ - que considera ter cometido um enorme erro jurídico -, a Câmara e a própria prefeitura.

A seguir, os principais trechos da conversa.

JC - Como essa dívida, antes sob responsabilidade da Caixa, veio parar na Cohab?

Newton - Foi um dos maiores erros jurídicos do País e isso é apontado até por advogados renomados, como Vicente Grecco e Fernando da Costa Tourinho. Foi um julgamento que saiu da esfera do Poder Judiciário e entrou na seara política. Foi uma decisão política que livrou a Caixa de pagar um valor milionário.

A LR venceu a licitação para construir o conjunto de São Manuel. Eram 632 unidades. E a CEF não pagou 37% deste contrato - ou seja, 233 casas saíram de graça e quem tomou o prejuízo foi a construtora, que ajuizou uma ação contra a Cohab e a Caixa, responsável pelo pagamento.

A Caixa foi condenada a repassar os valores na Justiça Federal de Bauru, no Tribunal Regional Federal da 3.ª Região (TRF-3) e também no STJ. O processo chegou a transitar em julgado, e foi quando a União entrou como assistente simples no caso.

Isso jamais poderia ter acontecido, até porque a entrada da União no processo aconteceu fora de prazo. Mas ocorreu, e desde então o STJ acolheu todos os pedidos da Caixa. Tanto que tirou o banco do processo. E tornou a Cohab a única responsável por um pagamento milionário. É uma monstruosidade. Mas parece que as autoridades de Bauru não se deram conta do tamanho do problema ainda.

JC - Isso, na prática, pode inviabilizar a capacidade de investimento de Bauru dentro do orçamento municipal?

Newton - Sim, claro. Até porque o município é sócio majoritário da Cohab e terá de arcar com suas dívidas. As construtoras que saíram no prejuízo lá atrás, algumas das quais até faliram, têm direito a receber. É até injusto, mas a dívida existe.

Mas Bauru precisa se movimentar. E basta um simples cálculo para ver que, na verdade, a Cohab tem valores a receber da Caixa - e não o contrário. A CEF enriqueceu e muito com os valores que deixou de repassar. Somente no caso da LR, a Caixa deixou de repassar R$ 7.250.377,37 em valores da época. Se ela investiu esse dinheiro nos moldes da taxa mínima de juros (3,5%), ganhou R$ 933.161.567.931,24 em todo esse tempo, de 28 anos e 6 meses ou 342 meses. Precisamos mostrar isso.

JC - O sr. tem falado que a Cohab não deve nada para a Caixa. Por quê?

Newton - Não deve mesmo. E ninguém fala disso. O contrato entre Caixa e Cohab prevê que a companhia retenha 6% dos repasses como taxa de administração. Peguemos 6% dos R$ 7 milhões que a Caixa deixou de repassar - o que equivale a R$ 435.022,20 - e apliquemos isso ao valor da taxa mínima. O resultado é um rendimento de R$ 2 bilhões. E somente com relação a uma obra. São mais de 10. Ao que tudo indica, a Caixa ganhou muito dinheiro sendo inadimplente com as companhias de habitação popular. E a Cohab Bauru precisa cobrar o que lhe é devido.

JC - O sr. acha que esse debate foi para o escanteio em Bauru?

Newton - Não tenho a menor dúvida. São poucos os vereadores que falam sobre isso. O mesmo acontece na prefeitura. Falam sobre os créditos do Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS) para reduzir a dívida da Cohab com a Caixa, mas esquecem do episódio das construtoras lá atrás.

Eu cheguei a conversar com a prefeita sobre isso e ela disse que pagaria a conta quando a dívida chegasse. Eu sou credor da Cohab, mas antes de tudo sou um cidadão bauruense. Não podemos deixar uma injustiça como essa passar ilesa.

Comentários

1 Comentários

  • Paulo Sergio Simonelli 11/06/2023
    De acordo com o sr. Newton ribeiro filho , a caixa deve para Cohab , Cohab deve para Jakef/Lr assinei um contrato para adquirir um ap. no sábias/andorinhas em 1994 . Paguei até 2002 . Hoje não tenho um lugar chamado meu para morar, desempregado e doente. A corda sempre arrbenta do lado mais fraco. Gostaria que minha voz fosse ouvida .Obrigado.