As declarações de Lula questionando a existência de uma ditadura na Venezuela, sob a alegação de que o regime de Nicolás Maduro é vítima de uma "narrativa" montada contra ele, atraíram fortes críticas no mundo democrático, a partir da maioria dos onze presidentes sul-americanos presentes à cúpula promovida pelo governo, em Brasília.
Para o presidente chileno Gabriel Boric, 37 anos, o mais novo mandatário do continente, declaradamente de esquerda, o que se passa na Venezuela "não é uma construção narrativa. É uma realidade".
Opiniões parecidas, dos presidentes Lacalle, do Uruguai, de centro, e do seu colega equatoriano Guillermo Lasso, de estrema direita, demonstram que a "narrativa" de Lula não agradou a ninguém, a não ser ao próprio Maduro. Os sete milhões de refugiados da ditadura venezuelana, espalhados pelos países vizinhos, protestaram contra o presidente brasileiro.
O governo dos Estados Unidos também reagiu à crítica de Lula ao embargo econômico imposto por Biden à Venezuela. Em tom dramático, nosso presidente colocou as crianças e os vulneráveis entre as maiores vítimas do bloqueio - "pior do que uma guerra".
No meu tempo de grupo escolar, havia exercícios de Narração, nas aulas de português. Os alunos deveriam contar um fato. Por exemplo: "As minhas férias". Quem tinha ido para Santos, nem precisava usar a imaginação. Eu, que ficava em casa esfregando o escovão para encerar o assoalho, apelava para a invenção.
Significado primário de narrativa: encadear eventos em um relato. Agora, a acepção corriqueira é conceituar os fatos de antemão, para depois amoldá-los em uma narrativa. Virou uma bizarrice política a valer mais do que a realidade. Há quase 2.400 anos, Aristóteles, na sua "Poética", sustentou que a narrativa é vital na construção de uma tragédia, cujo objeto é levar o público à catarse. Na Grécia Antiga, o teatro exercia um papel semelhante ao jornal dos nossos dias. No palco, discutiam-se os problemas do povo e, a plateia também opinava. Quando os debates se acaloravam, sem chegar a lugar nenhum, descia por uma corda o deus ex-machina (deus surgido da máquina). O personagem, representando uma divindade, dava um basta na questão e todos iam para casa, purgados. Tipo, "não tem pão porque não tem trigo, não tem trigo porque não choveu. Quando chover voltaremos a ter pão, e está tudo resolvido".
Lula foi uma espécie de deus ex-machina: a Venezuela tem um governo autocrático porque construíram uma narrativa, agora cabe ao Maduro, com sua narrativa, provar que estão todos equivocados. E estamos conversados.
O sociólogo francês Roland Barthes (1915-1980), na sua "Análise estrutural da narrativa", numerava que é por meio das narrativas que se fazem lendas, fábulas, romances, peças, comédias, HQs, etc. "As narrativas organizam e dão sentido ao que é desorganizado e não tem sentido: a vida."
Em outra vertente, o frankfurtiano Walter Benjamin dizia a que a narrativa é feita para seduzir. Alertava para a valorização do protagonista em detrimento da verdade factual. Mais atual, o americano Peter Brooks, professor de Literatura Comparada, assegura que neste século 21, o objetivo utilitário da narrativa é fazer com que as pessoas aceitem ideologias dominantes.
A verdade é que Lula acerta ao reaproximar-se da Venezuela, mas erra com a imagem condescendente que pretende passar de um governo ditatorial, cruel com aqueles que ousam levantar a voz contra a falta de liberdade no vizinho país. Sobrou para a repórter da Globo, Delis Ortiz, que levou um murro no peito do guarda-costas de Maduro.
O que o Lula tem feito, em matéria de política externa, com Putin, Maduro e outros ditadores de turno, para o país e para ele, é tão inútil quanto passar batom em porco.