OPINIÃO

A borboleta preta

Por Zarcillo Barbosa |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é jornalista

O racismo é mais do que uma manifestação explícita de ódio racial. O racismo sempre foi um fenômeno complexo, multiforme, tirânico, que se atualiza e reelabora.

A cada momento histórico há formas específicas para manter sua finalidade, que é o de exercer o papel de fenômeno de controle político, de exercício do poder.

No início do século passado, o futebol era considerado esporte de elite e atletas negros não eram admitidos. A miscigenação teria sido a causa da miséria e do atraso brasileiro. Até o dia em que apareceu o garoto sarará Arthur Friedenreich, filho de pai alemão e mãe negra. Foi o maior goleador de todos os tempos, suplantado, anos depois, por Leônidas da Silva - inventor do gol de bicicleta - e, em seguida por Pelé.

O futebol ganhou o mundo, a ponto de hoje ser considerado a coisa mais importante das coisas menos importantes, no dizer do ex-técnico italiano Arrigo Sacchi.

Hoje o futebol é o esporte mais rentável do mundo e seus atletas figuram entre os mais bem pagos. Semelhante atração, que deveria servir para unificar populações das mais diferentes etnias e nacionalidades, enveredou por caminhos da intolerância e do ódio. E pensar que a simples presença de Pelé com o Santos, na Nigéria em guerra civil, provocou uma suspensão dos combates para todos poderem ir ao estádio assistir ao "time dos sonhos".

Alertava o filósofo Karl Popper (1945), que a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. "Precisamos nos reservar, em nome da tolerância, ao direito de não tolerar o intolerante".

Disposto a não mais tolerar as seguidas demonstrações racistas contra a cor da sua pele, por parte da torcida espanhola, Vini Jr. transformou-se num símbolo internacional na luta contra o racismo. Terá lugar para sempre na história, ao lado de Rosa Parks e de Martim Luther King. A modesta costureira do Alabama, teve a coragem de não ceder seu lugar no ônibus a um branco jovem, e ir se sentar no banco dos fundos, conforme a lei. Sua resistência gerou um boicote dos negros ao sistema de transportes até que as autoridades revogassem o dispositivo segregacionista. Luther King em 1965 iniciou o movimento pacífico de "desobediência civil". A luta dos negros americanos pelos Direitos Civis sagrou-se vitoriosa, mesmo com seu assassinato aos 38 anos.

Fala-se em racismo estrutural. Estrutura é aquilo que dá forma a uma sociedade. O racismo está na educação, no acesso à saúde, no mercado de trabalho, nas posições de mando, nas crenças sobre a meritocracia, nos valores simbólicos e até nas relações afetivas e cotidianas. O país foi construído com base em ideais racistas; a nossa sociedade foi fundada na hierarquia racial. As leis não fazem um país antirracista. A cabeça das pessoas é que precisa mudar.

Ouvi o senador Magno Malta (PL-ES) dizer que a imprensa estava "revitimizando (sic) o Vini Jr, porque o assunto dá Ibope. Cadê os defensores da causa animal, que não defendem os macacos? Os macacos estão expostos".

Lembrei-me da Borboleta Preta, capítulo 31 de Memorias Póstumas de Braz Cubas. O narrador mata uma borboleta preta com uma toalha, e logo se arrepende e em seguida busca argumentos extravagantes para justificar o seu ato. "Também, porque diabo não era ela azul". A reflexão o consolou do malefício e o fez reconciliar-se consigo mesmo. Em seguida, uniu o dedo grande e o polegar e deu um piparote no cadáver, que caiu no jardim para servir de repasto às formigas.

Até jornalistas estrangeiros chegaram a culpar Vini Jr por suas provocações à torcida que revida com apupos, "coisa normal no futebol". Há até quem fale da existência do racismo reverso. As minorias raciais ou grupos étnicos querem se vingar do passado contra pessoas pertencentes à classe dominante. E há quem diga que não é racista. Defende que somos todos iguais, mas mantém distância.

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