OPINIÃO

Vejo flores em você

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 4 min
O autor é professor, autor de artigos didáticos e ficcionais e coautor de antologias da Língua Portuguesa

Nascido de um loteamento em terras da família Madureira, com terrenos vendidos pela imobiliária de Nicola Avallone Jr., Nicolinha, ex-prefeito e deputado estadual, o projeto previa um espaço verde no interior de cada quadra, como um quintal coletivo. Sem êxito, cada lindeiro usucapiu sua parte.

Primeiro bairro com poço artesiano próprio, No lugar de ruas adesiva em seu DNA alamedas. Uma das regiões mais antigas de Bauru. Fundado em 1950, empresta espaço aos históricos Casa do Garoto, Tilibra e o extinto Anderson Clayton. Trata-se do admirável bairro Vista Alegre.

Nesse passado memorioso, moradores da zona rural trocavam frangos, leitões e outros produtos da criação deles por sapatos, banheiras, carroças, rações e outras mercadorias do comércio. Havia inclusive um estacionamento para os cavalos, enquanto seu dono comercializava. Bauru acontecia na 'Baixada do Silvino'. Baixada? Por ser um dos pontos mais baixos da cidade, o local recepcionava a água dos rios que banhavam o município. Isso também repercutia com baixadas críticas. Isso mesmo.

A chuva em excesso excedia as vias, alagando-as. Baixando o assunto, a Baixada foi também palco de um histórico homicídio. Na quadra 1 da rua Floresta, o coronel Azarias Leite foi alvejado e morto por Joaquim Honorato, numa emboscada tramada por influentes políticos da época. Era dia 19 de outubro de 1910.

Com o tempo, muita gente abriu o portão de casa pra serralheria pra depois ver e ser visto na vidraçaria na Rua Padre Antônio Maria 1-40, do João Molina. Um, dois, três. Na alameda das Dálias, Dona Nilza Attuy, professora e moradora, dava aulas para pré-primário.

A sala ficava nos fundos da casa, com um quintal que emprestava espaço para hora do lanche. Recreação ria nos balanços do pasto do Diogo. Paulo Roberto Gonçalves, Grimilda de Oliveira Gonçalves, Tata Oliveira, Hilda Lima Violante são referências do Vista Alegre. Suas famílias, tais quais as hortênsias, gerânios e jasmins de seus quintais, cresceram com história.

Antônio Albertini, meu querido avô, também florava no bairro. Fluente na língua das plantas, aquela comunicação silenciosa e tácita entre espécies diferentes que só se dá através do amor, amava estar no meio delas. Ali se encontrava o seu conhecimento e a sua proficiência. É à carícia na terra e à água borrifada com cuidado em torno do broto que a planta responde. Seu Antônio sabia a verdade disso como ninguém. Homem simples, escandia cada sílaba com um sorriso discreto e orgulhoso. 'O que você vai ser quando crescer, Alexandre?' Conversar comigo dava-lhe curiosidade circunstancial, atenção que eu percebia e fazia questão de recompensar nunca pedindo paciência, nunca demonstrando cansaço.

Mal sabia ele que era na maneira simples de falar e na profunda sabedoria de seu mundo ao seu redor que residia a minha admiração por ele. Eram sábados alegres carregados de um azul abusado de belezas. Homem que já descansou seus pés após ter cuidado dos passos de tantos.

O sino da igreja Nossa Senhora Aparecida anunciava o horário. Seis da tarde. Ave-maria. Um silêncio obediente se impunha. Só quem viveu e conheceu historicamente o Vista Alegre estudou no Madureira, rezou na igreja Nossa Senhora das Graças, visitou em estado de admiração o esperado presépio da Casa do Garoto, comprou na Lemar Calçados, no Antenor Secos e Molhados, no empório Auri Verde, divertiu-se no Recanto Selvagem, deitou o cotovelo no balcão do açougue do Ulisses, molhou conversas no bar Três Cantos, jogou bocha, dominó, truco - seis ladrão! - regados a uma boa pinga nos bares da Baixada. Reconhece-se um morador do bairro quem chegou e partiu da rodoviária, quem comprou no supermercado Beira Rio, no Santo Antônio.

A rua Floresta testemunhava o movimento na padaria do Comegno. A do Moretti com novidades que saíam do forno. Na esquina católica da rua Aparecida com a Araújo Leite, a Casa do Arroz. Feijão, fubá de milho, farinha, arroz à granel e fumo de corda. Próximo à sapataria do Saliba, um andarilho deitava sua embriaguez no chão mijado de orvalho. Era um pé-de-chinelo em busca de sapatos.

As ruas do bairro são envolvidas com anúncios da beleza em movimento das árvores, que emprestam sombras dilatadas. Entre uma rua e outra, moradores descansam suas amizades entardecidas, sentados em cadeiras e bancos à beira da calçada.

Falas preguiçosas competem com crianças de riso fácil, envolvidas nas brincadeiras rasteiras e suadas da rua. Pipa e bola, bola e pipa. Minhas lembranças da Alameda das Primaveras nunca foram outonais: não caem nunca. Tudo desse bairro está comprometido com a minha vista. Vista Alegre.

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