No clássico "Raízes do Brasil" (1936), o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda diz que "a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade - daremos ao mundo o "homem cordial". Deve ter se arrependido amargamente do que reverberou, pela interpretação dos seus leitores. O autor teve que se utilizar de vários ensaios para explicar que nunca quis delinear um conceito de brasileiro afável e amigável.
Cordial, vem do latim "cor, corde", que significa do coração, de maneira emotiva. Nada de polidez, muito menos de civilidade. O filho Chico, também Buarque de Holanda, mais recentemente reforçou a interpretação do pai, dizendo que o homem comum, neste país, "age duas vezes antes de pensar".
No Brasil contemporâneo, temos exemplos de pessoas importantes que inserem fake news nas redes sociais, sem pensar nem antes, nem durante e muito menos depois. Um deles culpa os anestésicos que tomou e o fez trocar as bolas.
Os cronistas estrangeiros que nos visitaram no tempo do Brasil-Colônia, como o próprio Darwin, em viagem pelo mundo a bordo do "Beagle", chegaram a elogiar a lhaneza no trato, a hospitalidade, e a generosidade como traços do caráter do brasileiro, influência do ambiente rural e patriarcal.
Observadores daquele país nascente também não quiseram dar crédito de boas maneiras e civilidade ao povo. A aparente cordialidade, seria expressão legítima, mas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante.
A polidez não passaria de uma organização de defesa. Uma forma de resistência. Tratamos bem, para que o outro lado do balcão seja mais ameno na cobrança do que devemos. Ou quem sabe, o desejo oculto do "cordial" seja distrair o antagonista para pegá-lo desprevenido. Equivale a um disfarce. A estratégia permite a cada qual preservar intactas sua sensibilidade e emoções.
Mesmo que no Império, as relações sociais não tenham sido tão inocentes, o Brasil piorou muito. E o mundo também. Os negócios são impessoais e as amizades já não são baseadas nas emoções, de modo prevalente.
Ainda recentemente as instituições brasileiras foram achincalhadas violentamente por um bando de fanáticos que se diziam "patriotas". Nada disso teve a ver com fatores ideológicos. Simplesmente decidiram colocar a violência como solução de problemas. Os instigadores dessa turba, agora não aparecem nem para levar água para quem está preso.
Enquanto isso, no Congresso, ministro e deputado se enfrentam: Swat contra os Super Heróis Vingadores. Essa subcultura extremista é disseminada pela internet em clima de competitividade.
Os meios de divulgação, eletrônicos ou não, estão repletos de atos de barbárie. O jovem, de 25 anos, com uma machadinha invade a creche e mata quatro crianças. Dentro da sala de aula, a professora é assassinada pelo aluno de 13 anos. As escolas refletem a dinâmica de um país desigual e violento.
O presidente Lula até deu um refresco: com trinta milhões de brasileiros "com problemas de desequilíbrio de parafuso, pode uma hora acontecer uma desgraça". Por falta de parafuso, 40 mil estupros por ano são registrados contra crianças. São mais de quatro por hora, cometidos, principalmente, por pais, padrastos, tios, primos e vizinhos. Justamente os que deveriam proteger os vulneráveis.
Os psicólogos estão preocupados com a crescimento da Aporofobia - o horror a pobres, à pobreza ligada à questão racial. Em Brasília, os agroboys que atearam fogo no índio que dormia no ponto de ônibus, porque perdera a condução, alegaram tê-lo confundido com um mendigo.
O patrimonialismo que domina a sociedade, firma a concepção da mistura do público com o privado. O dinheiro do povo se confunde no bolso de quem detém poderes. O conceito de justiça parte de pressupostos pessoais. O homem cordial está morto... Ou nem chegou a nascer.
O autor é jornalista.