"Esse ano completo 40 anos. Certamente não me imaginava nesse lugar quando era mais jovem", escreveu a ilustradora Helena de Cortez em um publicação em que analisa a própria trajetória, em 2021, com "um misto de orgulho e frustração". Ela sentia que, naquela idade, "já deveria estar com tudo pronto, encaminhado, mas que ainda engatinhava em muitas coisas".
Helena se sente "em uma crise de meia-idade" e a traduz como "tá na hora de abrir o olho e enxergar melhor as coisas, no mundo interior e nas próprias escolhas". Seus planos incluem reparar os estragos financeiros que sofreu com a pandemia.
Parte da primeira leva de millennials do Brasil a cruzar a fronteira dos 40 anos, a ilustradora se prepara para o aniversário de 42, em junho.
Os millennials correspondem à maior parcela da população brasileira e englobam quem nasceu de 1981 a 1996. Entre 54 milhões de pessoas que compõem a geração, mais de 10 milhões estarão na faixa etária de Helena em 2023.
Esse universo, frisam especialistas, caminha para o período conhecido como meia-idade, iniciado entre 40 e 45 anos, com mais expectativa de vida e de avanços sociais do que antes. Mas, na média, também anda com a rota estremecida por uma série de turbulências que tem dificultado a trilha, como crises econômicas e, mais recentemente, a pandemia.
No campo educacional, Marcelo Neri, diretor da FGV Social, observa ganhos de até três vezes em comparação a gerações anteriores. A média de anos de estudo passou de 2,93, em 1972, para 5,21 em 92. Atualmente está em 10,08, nessa faixa etária.
Os saltos se deram, entretanto, em um cenário de produtividade estagnada ou seja, em um contexto em que a quantidade que cada um produz e o que fica no longo prazo estão empacados até hoje.
"Faltaram políticas que ligassem o avanço educacional ao desempenho econômico e trabalhista. Essa geração viveu uma revolução social, mas vive uma frustração econômica. Um descasamento que surpreende, porque normalmente trajetórias econômicas e sociais andam de mãos dadas e não foi o que aconteceu no Brasil. Nesse aspecto, o país falhou", diz Neri
Para o pesquisador, "houve um hiper otimismo que não se confirmou no Brasil".
O índice de felicidade futura, que mede a expectativa de satisfação individual com a vida, se manteve, historicamente, entre os maiores do mundo também prenunciando "uma elevada probabilidade de frustração".
"O jovem brasileiro esperava muito do futuro. Olhava para frente com otimismo, mas, antes de chegar aos 40, 44, viveu quase 10 anos bastante limitado por sucessivos choques econômicos. Houve crises, uma grande recessão, lenta retomada e, então, a pandemia".
O aumento da expectativa de vida veio com questionamentos na linha de “como vai ser minha vida se a previdência estiver quebrada?” ou “e se eu não conseguir fazer o meu pé de meia?”. Dados do Grupo Cia de Talentos, da pesquisa Carreira dos Sonhos, mostram alta frequência de preocupação, cansaço e ansiedade nessa geração.
Tantas questões somadas à intensa presença das redes sociais têm criado “uma sensação de pisar em areia movediça”, além de colocar em xeque a qualidade de vida, diz a doutora em psicologia social e professora da Fundação Getulio Vargas e da Escola Superior de Propaganda e Marketing, Flávia Feitosa.
“É uma questão do momento que estamos vivendo. Não é exclusiva dos millennials, mas estar na meia-idade torna a coisa mais complexa”, afirma. O mundo “vendido” à geração, ressalta, foi um mundo incrível, de inúmeras possibilidades e sonhos, enquanto o entregue “foi uma condição muito ruim”.
Para a professora Roberta Pitta, 40 anos, fatores econômicos e políticos interferiram no que, aos 20, idealizava para o futuro. “Mas não há frustração. Eu entendo que cheguei a um lugar onde consigo respirar um pouco para pensar em coisas maiores.”
Hoje, ela dá aulas a crianças como concursada na rede pública, e já foi operadora de telemarketing e recepcionista. Já o pai e a mãe não completaram o ensino médio. A professora, por outro lado, fez duas graduações, especialização e mestrado. Acredita que “o auge da vida ainda está por vir”, o que inclui um possível doutorado e outros caminhos profissionais.
Daniel Trinconi Borgatto, 41 anos, vê que muitos amigos na mesma idade seguiram a linha esperada pelas famílias. “Só que eu quebrei um pouco essa engrenagem”, diz.
Ele começou a trabalhar cedo, estudou no que considera uma boa faculdade e viveu em ambientes “extremamente” competitivos nas multinacionais por onde passou. Mesmo seguindo a receita, percebe o contexto vivido por sua geração como diferente das anteriores.
Já o administrador Anderson Nogueira acha que “inflação elevada, salários que não sobem e redes sociais em que todos se comparam são gatilhos de infelicidade”. Ele é de 1989. Voltou para o Brasil em dezembro, após um ano nos EUA, onde a nova geração de 40 é apresentada como mais pobre, insegura e infeliz que os pais.