De cortador de cana a referência na Saúde
Filho de um lavrador e uma dona de casa, Ezequiel Aparecido Santos começou cedo a trabalhar na roça. E foi cortando cana-de-açúcar que passou a sonhar, já com o discernimento de que os estudos poderiam levá-lo a novos voos. E assim foi. Hoje com 44 anos, ele comanda o Departamento de Saúde Coletiva (DSC) da Secretaria Municipal de Saúde, sendo responsável por gerenciar o trabalho de quase 300 servidores.
Nascido em Boraceia, viveu na zona rural até os 19 anos, quando conseguiu concretizar um desejo alimentado há tempos: o de mudar-se para Bauru. Justamente, na época em que viajava diariamente entre as duas cidades, cortando cana em uma fazenda de seu município de origem, ao mesmo tempo em que fazia cursinho pré-vestibular no Preve Objetivo.
Agradecido pelas muitas mãos que se estenderam em seu caminho, em Bauru ele trabalhou como porteiro e, mesmo com escassos recursos financeiros, mas com muito esforço e persistência, formou-se como técnico de enfermagem e, posteriormente, como enfermeiro. Quando estava no segundo curso, casou-se com Gisele, com quem teve o filho único, Eduardo, hoje com 16 anos.
Ezequiel também fez MBA em gestão hospitalar e saúde pública e, já servidor público municipal, concluiu mestrado em doenças respiratórias negligenciadas e doutorado em dengue. Dentro da secretaria, ascendeu rapidamente, tornando-se, em 2015, diretor da Divisão de Vigilância Epidemiológica e exerce, desde 2021, o cargo de diretor do DSC, que abriga as vigilâncias epidemiológica, ambiental e sanitária.
Recentemente, por cerca de 20 dias, Ezequiel também foi titular interino da Secretaria Municipal de Saúde. Nesta entrevista, ele narra as dificuldades que enfrentou para chegar onde está, fala sobre o quanto estudar e ter pessoas solidárias por perto foi importante para suas conquistas, relembra o momento mais difícil de sua carreira na Saúde, durante a pandemia de Covid-19, e o que o levou a ser considerado um dos servidores de carreira mais respeitados da prefeitura.
JC - Você passou a infância e adolescência na zona rural. Que lembranças guarda daquela época?
Ezequiel - Nasci e cresci no sítio, às margens do Rio Tietê, até completar 17 anos. Fiz escola rural até a quarta série e, no quinto ano, fui estudar na cidade, o que foi um choque. Os costumes, as roupas, o modo de falar: tudo era diferente. Em casa, era tudo muito tradicional, pacato, comíamos o que plantávamos e pouco consumíamos de alimento industrializado. A fazenda em que cresci tinha um pomar enorme. Carne, leite: tudo era dividido entre as sete famílias da colônia que existia lá. Elas trabalhavam na lavoura de café e, além do alimento, recebiam salário do patrão. Depois, fomos morar em outras fazendas de café, depois em sítio. Quando tinha 10 para 11 anos, o café já estava em declínio, teve o Plano Collor e ficamos em uma situação muito precária.
JC - E como a família conseguiu se reerguer?
Ezequiel - Meu pai foi trabalhar em uma lavoura de cana-de-açúcar. Ficamos nesta fazenda dos meus 11 aos 17 anos. Nessa época, fiz minha formação do ensino fundamental ao médio. Simultaneamente, aos 13 anos, comecei a trabalhar em uma olaria, depois, por quatro anos, trabalhei em uma fazenda de gado. E, com 16 anos, nos mudamos para a cidade e me tornei cortador de cana, função que exerci até os 19 anos.
JC - Em que momento decidiu vir para Bauru e buscar um caminho diferente?
Ezequiel - Minha irmã Leodir veio trabalhar como empregada doméstica em Bauru quando eu tinha 11 anos e sempre sonhei em morar aqui. Quando vi a vida que os patrões dela tinham, eu passei a querer aquilo, a ter uma carreira. Então, a filha da dona Guiomar, que era a patroa da minha irmã, conseguiu uma bolsa de estudos para eu fazer cursinho no Preve. Cortava cana até as 16h e pegava o ônibus até Bauru para fazer cursinho à noite. Isso me motivou ainda mais, porque também via como era a condição de vida dos outros alunos. E entendi que o caminho era o estudo. Ao mesmo tempo, comecei a procurar emprego e tive muita ajuda de uma professora, chamada Inará. O professor Marcos Bilancieri, que também viajava de Boraceia a Bauru, viu minha luta e, um dia, apareceu na lavoura dizendo que tinha arrumado um emprego para mim na empresa de segurança Avante. Mesmo sem a concordância do meu pai, vim para Bauru e comecei no dia seguinte, como porteiro na Unip.
JC - Conseguiu se acomodar e se acostumar com a cidade de forma rápida?
Ezequiel - Eu não tinha onde ficar e a dona Guiomar me orientou a pegar minhas coisas em casa e, quando voltasse, resolveríamos o que fazer. Acabei passando a primeira noite na casa dela, no quarto da minha irmã, e fui para o meu primeiro dia de trabalho, em um sábado. No domingo, a dona Guiomar me convidou a ficar seis meses morando lá, até me estabelecer. Na segunda, me colocaram para trabalhar na portaria do Hospital da Unimed, que tinha acabado de ser inaugurado. O porteiro Gaúcho, que foi um paizão para mim, me acolheu, me ensinou a falar, porque eu era inseguro, falava errado. Fiquei lá de 1999 a 2003.
JC - Trabalhar em uma instituição de saúde foi a virada de chave para começar a atuar na área?
Ezequiel - Na portaria, tinha muito contato com o pronto atendimento, prestando apoio quando necessário, e fui fazendo amizades. Sugeriram que eu fizesse curso de técnico de enfermagem e me matriculei na escola Ana Nery. O primeiro estágio foi no Hospital Manoel de Abreu, à noite, com pacientes terminais oncológicos. Eu ia de ônibus da Unimed até a Praça Machado de Mello, no Centro, e seguia a pé até o Manoel de Abreu. No primeiro dia de estágio, embora nunca tivesse visto aquele tipo de paciente, foi como se eu estivesse entrando na minha casa. Parecia que eu tinha nascido para aquilo. O estágio terminava às 22h. Mas como a professora ficava até mais tarde, meu parceiro de estágio, o Josué, e eu pedimos para ficarmos também, ajudando nos banhos, nos curativos. Durante três meses, ficamos até as 3h da madrugada. Eu já estava dividindo um apartamento em cima da Casa Burgo com mais dois meninos e pegava carona com o Josué na volta. Horas depois, acordava para ir para a Unimed.
JC - Em meio a toda esta correria, como consegui fazer faculdade?
Ezequiel - Terminei o curso na Ana Nery em 2002, quando o Hospital Estadual tinha acabado de inaugurar. Prestei concurso e fui trabalhar lá como técnico de enfermagem, na UTI pediátrica. A Lucy, que era coordenadora deste setor, me ajudou muito. Aliás, sempre tive alguém me estendendo a mão ou mesmo me empurrando, porque, muitas vezes, tive vontade de desistir. Foi pesado. No fim daquele ano, prestei vestibular para enfermaria na USC e passei, mas não tinha condições de pagar. Peguei o mínimo de créditos (aulas) para pagar o menor valor possível e minha irmã me ajudava com comida e algumas contas. Trabalhava de manhã e estudava à tarde e à noite. No segundo ano, não consegui mais pagar a faculdade e a Lucy foi fiadora para que eu pudesse ter uma bolsa parcial. E o Wellington, meu amigo que também se formou em enfermagem, chegou a pagar minhas mensalidades algumas vezes.
JC - E por que decidiu ingressar no serviço público?
Ezequiel - A primeira vez foi em 2004, como técnico de enfermagem na Unidade Básica de Saúde do Redentor, para conseguir pagar meus estudos. Fiquei com dois empregos, passei a estudar só à noite e deixei os estágios para depois. No final de 2004, fui contratado pela Unimed e pedi exoneração da prefeitura. Trabalhava uma noite no Estadual e outra na Unimed e voltei a estudar em período integral, até terminar a faculdade, em 2008. Conheci minha esposa na USC, nos casamos em 2005 e, até o fim do curso, moramos na casa dos meus sogros, que sempre me apoiaram muito. Em 2006, nasceu meu filho. Em 2008, prestei concurso para enfermeiro no Hospital Estadual, passei e tinha 60 dias para assumir, mas ainda não tinha me formado. Os professores, vendo todo meu esforço, adiantaram alguns estágios, que eu comecei a fazer aos domingos, meu único dia de folga, 12 horas por dia, na Beneficência Portuguesa. Consegui me formar em 30 de outubro e, no dia 1 de setembro, estava trabalhando no Estadual, onde fiquei até 2012.
JC - Depois, acabou decidindo voltar para o setor público, correto?
Ezequiel – Eu já tinha prestado concurso na prefeitura para enfermeiro em 2007, mas ainda não tinha sido chamado. Trabalhando no Estadual, pedi a conta como técnico na Unimed porque queria descansar, curtir um pouco a família. Em 2011, minha irmã faleceu. Naquele mesmo ano, a prefeitura me chamou e assumi como enfermeiro na UBS da Vila Falcão. Quatro meses depois, a diretoria me convidou para assumir a chefia da UBS da Bela Vista. Eu já tinha concluído meu MBA em gestão hospitalar e saúde pública, por entender que um enfermeiro completo precisa ter conhecimento de gestão, trabalhar com dados, resultados, para que a manutenção e a qualidade do serviço prestado sejam as melhores possíveis.
JC – Foi por ter essa visão que você conquistou um espaço tão importante na gestão de saúde do município?
Ezequiel – Acredito que fiz um bom trabalho na UBS da Bela Vista, onde fiquei até 2015, quando fui chamado para assumir a Divisão de Vigilância Epidemiológica, no governo Rodrigo Agostinho, com o desafio de mostrar para a sociedade qual era a atuação dela. Minha diretora, a Meire, queria um perfil técnico, pautado no conhecimento científico. Naquele ano, tivemos a pior epidemia de dengue da cidade e, em 2019, uma ainda mais catastrófica, um momento muito difícil para a tomada de decisões. Naquele mesmo ano, tivemos surto de sarampo e, quando achamos que iríamos ter uma trégua, veio a pandemia de Covid-19.
JC – Foi o momento mais difícil da sua carreira?
Ezequiel – Foi como gestor, profissional e ser humano. No início, não tínhamos informação sobre nada, o Ministério da Saúde permaneceu inerte e o Estado de São Paulo, confuso, sem se comunicar diretamente com as vigilâncias epidemiológicas. A Anvisa e a literatura internacional foram nossos principais apoios. Trabalhamos na raça. Não havia exames para todos que apresentavam sintomas e os resultados demoravam semanas para ficarem prontos. Faltavam máscaras, aventais, medicamentos, vacina. Além disso, as famílias dos pacientes que morriam não podiam fazer velório, tocá-los. Foi muito duro. No meio disso, sofri até ameaça de morte pelas medidas duras que tivemos que tomar em Bauru. Houve muito enfrentamento. Foi uma pandemia com viés político.
JC – Existe um grupo de servidores de carreira da prefeitura que é muito respeitado e você faz parte dele. A que atribui este reconhecimento?
Ezequiel – Não tenho esta dimensão, mas acredito muito no serviço público, mesmo reconhecendo que ele pode ser melhorado. Acredito na equipe e tenho fé na humanidade. E sempre deixo claro para todos os prefeitos e secretários de Saúde que não trabalho para eles e sim para a população. Eu jamais vou fazer algo errado, se me pedirem, e aviso que irei denunciar se eu vir alguma coisa errada. Ter um cargo não é uma ambição, mas uma consequência. Entendo que, neste momento, sou útil para ocupar o cargo em que estou hoje, de diretor do Departamento de Saúde Coletiva. Sou servidor público e meu papel é servir a população.
O que diz o diretor:
"Cortava cana até as 16h e pegava o ônibus até Bauru para fazer cursinho à noite. Entendi que o caminho era o estudo"
"Sempre tive alguém me estendendo a mão ou mesmo me empurrando, porque, muitas vezes, tive vontade de desistir. Foi pesado"
"Ter um cargo não é uma ambição, mas uma consequência. Sou servidor público e meu papel é servir a população"
Comentários
1 Comentários
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APARECIDA INARÁ DAMACENA 07/05/2023Ezequiel , soube por um amigo querido, um mestre , o professor Jurandir (a quem admiro e sou extremamente grata) que fui mencionada em sua entrevista publicada no JC de hoje 07/05/23 !Ao ler a matéria deparei-me com sua gratidão que me comoveu , emocionou meus filhos Nícolas Madeira Damacena Correa da Silva e Natan Madeira Damacena Correa da Silva e minha mãe Mara Candida ( que escreveu-lhe no Facebook dela e no Jcnet ) . A grandeza do seu gesto reforça a sua trajetória . Lembro-me da sua luta, do seu sonho , da sua determinação, que bênção ver a linda família que formou e constatar as vitórias que obteve . O Preve Objetivo Bauru reúne histórias inspiradoras como a sua e agradeço a Deus por ter proporcionado através da minha vida e do meu trabalho , condições para que você alcançasse seus sonhos e fosse além com determinação e foco. Não somos \"amigos\" no Facebook, espero que minha mensagem chegue até você. Mais e mais bênçãos para você e sua família. Hoje você foi o anjo que Deus enviou para mostrar-me que realmente amo o que faço!