OPINIÃO

Casa nova casa

Por Demerval Assis da Silva |
| Tempo de leitura: 2 min

Domingo pós-almoço, que não deveria, mas que se torna lento e monótono, o segundo dia do tão esperado e ansiado FNS, na verdade, o primeiro dia da semana. O sétimo, em que Deus descansou, depois da criação do mundo. Meu sobrinho passa para me pegar, iríamos eu e ele visitar minha tia, que é sua avó, pois uma das minhas irmãs casou com um dos nossos primos, ficando assim, mais alguma dualidade em família. Lá fomos nós. Lá chegamos, num trânsito "modo rápido" pelo dia e pela hora, letárgicos.

Casa de Repouso, num bairro de belíssimas casas, de um tempo não muito remoto. Hoje meio ultrapassadas e, arriscaria, um pouco decadentes também. Embora meio sem tanta certeza, devido à imponência da maioria delas. Mais ainda, ao sermos atendidos no tocar da campainha e adentrando o imóvel de muito bom gosto, e a certeza do muito gasto, no sonho, casa dos sonhos, realizado talvez. Numa ampla sala lá estava minha tia, mais de noventa anos, irmã da minha saudosa mãe, avó do meu sobrinho, sogra da minha irmã e mãe do meu primo.

Mas nada do que vimos tiraria o sentimento um tanto deprimente daquela bela agora, casa de repouso. Senhora que ao ver-nos esboçou leve contentamento, tanto quanto nós dois, os visitantes, também. Quantas histórias ali se juntando agora, quantos sonhos sonhados e realizados de tantas famílias, mas como o tempo não para, agora quem sobreviveu a ele se tornou fardo pesado demais. Então foram compartilhar este fim, todas juntas, numa belíssima e decadente "alegre triste" casa de repouso.

Ficamos ali, pouco mais de uma hora talvez, num paradoxo de sentimentos, do lugar que o tempo também não passa. Sem ter muito o que falar, mas muito a que se refletir: "Quem será o próximo da lista a chegar aqui, ou quem sobreviverá para aqui chegar?". "Quanto custaria a estadia nesse nível de repouso bem cuidado?". Ou é uma "care business house" apenas, nada mais!?

Nos despedimos de todos, das simpáticas cuidadoras e das "afilhadas do alemão Alzheimer". Com ao menos um atenuante, minha tia, avó do meu sobrinho, ficará ali apenas, acredito eu, no máximo, por duas semanas. Quando minha irmã e meu cunhado chegarão do seu "tour de France", Europa a fora.

"...Em casa, novamente, em casa. Gosto de estar aqui quando posso. Quando chego, com frio e cansado, é bom esquentar os meus ossos junto à lareira, com as pessoas, que realmente me amam... Mas o tempo passou, a música acabou e eu pensei que tivesse algo mais importante a dizer..." (Pink Floyd - Time)

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