OPINIÃO

Classificados de tão pouco

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor, autor de diversos artigos didáticos e ficcionais e coautor de antologias da Língua Portuguesa

No asfalto da cidade selvagem pés agitados caminham serviço, ocupação, emprego, vaga, atividade. No semáforo da avenida, um palhaço velhinho (sem brincadeira) sorri por trocados. Da última vez, vendia piadas (é sério) por vinte minutos de recreação. No outro lado, uma grávida do terceiro filho vende paçocas. Barriga forjada a jejum. É no sinal fechado que se abre na venda. O filho do meio, que agora aprendeu a contar, conta moedas na calçada limpa do Bradesco Prime. O auxiliar de limpeza, o tio da escola estadual lá do centro, que tira as lagartixas escondidas atrás das cortinas, vende biscoitos de polvilho na Agenor. Um homem do saco se abana na inutilidade dos dias, perplexo, reticente como semivogal de ditongo. Dias cansados à espera de velhas novidades. Todo mundo espera por um bom trabalho que consiga comprar o arroz, feijão, o pão, diversão e arte, que ao final do mês consiga rir (em dia útil) dos trinta dias vividos. Viver com satisfação como um desenho feito e ao acabá-lo, mostrar pra alguém e este alguém, atento ao traço, às formas, às cores, incentive por mais e mais, admirado que ficou.

Vida de trabalho que dá. Todo dia o despertador desperta a dor. Todo o dia a mesma fé, a palavra arbitrária. Todo dia o bilhete pro norte, da viagem com que sonho pro sul. Todo dia a mesma entrada e igual saída, o vento que sopra no rosto e varre expectativas. O dia, uma vez mais, posto em ata. Nessa morte lenta e silenciosa há quem, classificado a novas propostas, busque novos classificados para viver. Homem solteiro busca em olhos verdes, ou que sejam castanhos, negros num corpo de mulher amada. Oftalmologista, fã de Rita Lee, alerta: é cor de rosa choque. Desenhista retrata modelos com olhos nus olhos. Cineasta, especialista em realismo, busca idosos pra roteirizar rugas. Escola busca professor de Língua Portuguesa, precisa ser um sujeito com predicados. Editora busca tradutor para intermediar monólogos de escritores narcisos. Cuteleiro, com larga experiência em Chico Buarque, disponibiliza novos acessórios, de muito usada a faca já não corta.

Estilista, admirador de Kafka, realiza metamorfoses em pessoas com baixa autoestima. Alfaiataria, exímia em tecidos russos, confecciona capote. Fórum, especializado em Dostoiévski, faz audiência de Crime e Castigo. Evangélico, telespectador assíduo da Globo, orienta que vai na fé. Católico, leitor de Eça de Queiroz, denuncia crime do padre. Psicanalista, com mestrado em Guimarães Rosa, orienta que a terceira margem do rio é o sobrenatural. Terapeuta, leitor de Graciliano Ramos, avisa: angústia faz parte do processo. Corretor de redação, ledor de Mário de Andrade, informa que embora amar seja verbo intransitivo, aceita complemento. Repórter, ao retratar obra de Nélson Rodrigues, mostra a vida como ela é. Conceituado botânico, impactado pelas obras de Érico Veríssimo, incentiva a olhar os lírios do campo. Filósofo, seguidor de Clarice Lispector, reflete o porquê de a felicidade ser clandestina, ainda mais quando o amor faz morada perto do coração selvagem. Boêmio, fã de Drummond, procura definição sobre sentimento do mundo. Coach do amor, inspirado em Renato Russo, questiona se alguém irá dizer se não existe razão nas coisas feitas pelo coração. Historiador, ouvinte de Roberto Carlos, tece a história em detalhes. Cansada de levar sabão, lavadeira solteira, grávida, busca outro tipo de trabalho. Dançarino oferece seus préstimos para o que der e vier ou para quem vier e der. Costureira procura trabalho. Altamente capacitada em ajustar casas dos "botões da blusa/ que você usava".

Eu, ah, voluntário, fazia reparos civilizatórios de desapegos. Rasgar papéis. Isso mesmo. Leva um tempo pra gente descobrir que rasgar papéis é mais fácil do que rasgar fotos. Rasgar papéis requer apenas as mãos, ao passo que rasgar fotos é como rasgar histórias pra recompor retinas. Agora, conserto bagatelas. Palavras despretensiosamente desritmadas, desassistidas de poesia, esquecidas no canto do quarto. Uma escova hidratada de creme dental, meia desemparelhada, cinto preto sem fivela, um bandeide seminovo, uma xícara com pão e ovo, um doce de abóbora experimentado, uma pétala, a palavra e etecetera, a rosa, um dedo fino de prosa.

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